Conheça Nadine Labaki, única mulher que concorre ao Oscar de filme estrangeiro

Aquecendo os motores para o Oscar 2019, que ocorre em 24 de fevereiro, Mulher no Cinema vai publicar, diariamente, um breve perfil de todas as profissionais femininas indicadas em cada uma das categorias.

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Já falamos sobre as mulheres indicadas a melhor filmeatriz, atriz coadjuvante, roteiro adaptado e roteiro original. A categoria da vez é filme estrangeiro, na qual há apenas um filme dirigido por mulher entre os cinco indicados: Cafarnaum, de Nadine Labaki.

O longa é o representante do Líbano, país que conseguiu sua primeira indicação na categoria no ano passado. Concorrer ao Oscar de filme estrangeiro é um processo de três fases. Primeiro, cada país escolhe o seu candidato e o pré-indica à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (este ano, 20 filmes dirigidos por mulheres estavam entre os 87 inscritos, o equivalente a 23%). Depois, a lista de nove semifinalistas é divulgada e, por fim, os cinco longas que de fato disputarão a estatueta.

A bem-sucedida carreira de Cafarnaum começou com a estreia mundial na competição do Festival de Cannes, da qual o filme saiu com o Prêmio do Júri. O drama conta a história de Zain, um garoto pobre de 12 anos que, após passar por muitas dificuldades, processa os pais por o terem colocado no mundo.

É o terceiro longa-metragem de Nadine Labaki, que nasceu em 1974, em Baabdet, no Líbano. Vivendo em um país em guerra até o início da década de 1990, ela viu a paixão pela sétima arte começar logo na infância, quando tinha o hábito de assistir a muitos filmes com sua irmã. Assim, decidiu estudar cinema, e o fez no próprio país: durante o curso na Universidade St. Joseph, em Beirute, dirigiu o curta 11 Rue Pasteur (1998), premiado na Bienal de Cinema Árabe do Instituto do Mundo Árabe, em Paris.

Imagens dos filmes “Caramelo” e “E Agora Onde Vamos?”, de Nadine Labaki

Seguindo na carreira, Labaki participou de workshops de atuação e começou a dirigir comerciais e videoclipes de artistas libaneses e árabes. Em 2004, aproveitou um programa de residência de Cannes para escrever o roteiro de seu primeiro longa, Caramelo, que fez sua estreia mundial na Quinzena dos Realizadores do mesmo festival em 2007. O filme, também dirigido e estrelado por ela, fez enorme sucesso de bilheteria no Líbano e levou a revista americana Variety a incluí-la na lista de cineastas para se “ficar de olho”. 

No segundo longa, E Agora Onde Vamos? (2011), ela voltou a assumir as funções de diretora, roteirista e atriz. Voltou, também, ao Festival de Cannes, exibindo o filme na mostra Um Certo Olhar. A carreira como atriz continuou em longas como Rock the Casbah (2013), Minha Culpa (2014) e O Preço da Fama (2014), enquanto o trabalho seguinte como cineasta foi um segmento do filme colaborativo Rio, Eu Te Amo (2014).

Para escrever Cafarnaum, Labaki passou mais de três anos fazendo pesquisa e visitando prisões, tribunais e organizações não governamentais que trabalham com crianças no Líbano. Após um longo processo de seleção de elenco, ela escolheu atores não profissionais. O protagonista, Zain al Rafeea, era refugiado sírio, tinha 12 anos e não sabia ler quando rodou o filme, enquanto a outra criança do longa, Boluwatife Treasure Bankole, era apenas um bebê. Questionada pelo jornal The New York Times sobre como conseguiu atuações tão impressionantes de um elenco tão novo e inexperiente, Labaki respondeu:

“Foi um jeito muito orgânico de trabalhar, não havia nenhuma receita. Para Zain e Treasure, era impossível memorizar uma fala, e geralmente o ator está a serviço de um determinado texto e de um determinado movimento de câmera. Neste caso, foi o contrário. Nós é que tínhamos de estar a serviço deles. Tínhamos de ser observadores. Alguns takes duraram horas e horas. E realmente nunca pedi para eles atuarem. Apenas queria que fossem quem são, e cabia a mim saber como capturar essa natureza e não alterá-la”

As filmagens duraram seis meses e a quantidade de material representou um desafio durante a edição: o primeiro corte tinha 12 horas, mas a versão que chegou aos cinemas tem 126 minutos. O sucesso internacional do longa levou Labaki a conseguir representação da agência Creative Artists, que, segundo o Hollywood Reporter, já começou a receber ofertas de trabalhos em inglês para a diretora. 

Além de Cafarnaum, concorrem ao Oscar de filme estrangeiro Assunto de Família, de Hirokazu Koreeda (Japão); Guerra Fria, de Paweł Pawlikowski (Polônia); Never Look Away, de Florian Henckel von Donnersmarck (Alemanha); e Roma, de Alfonso Cuarón (México).

A categoria foi instaurada na 29ª edição do Oscar, realizada em 1957, e até hoje só premiou três filmes dirigidos por mulheres. São eles: A Excêntrica Família de Antônia (1995), de Marleen Gorris; Lugar Nenhum na África (2001), de Caroline Link; e Em um Mundo Melhor, de Susanne Bier (2010).


Luísa Pécora é jornalista, criadora e editora do Mulher no Cinema – fotos: Getty Images

Mulher no Cinema publica perfis de todas as mulheres indicadas ao Oscar 2019 até 24/02. A cada dia é publicado um texto sobre uma categoria diferente. Acompanhe a série completa aqui.

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