Com 70% de mulheres na equipe, “De Perto Ela Não É Normal” estreia no streaming

Suzana Pires começou a entrevista dizendo que estava emocionada. Logo antes de entrar no Zoom para a conversa com o Mulher no Cinema, ela recebera a mensagem de um tio sobre a comédia De Perto Ela Não É Normal, que ela escreveu, produziu e protagonizou, e que estreia nesta quinta-feira (5) no streaming do Telecine. “Quando um retorno tão bonito vem de alguém que te conhece desde criança, e quando esse alguém se deixa impactar pelo filme que você fez, a coisa fica muito séria”, explicou.

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A estreia do longa representa a mais nova etapa de uma jornada que começou em 2004, quando Suzana começou a escrever De Perto Ela Não É Normal, então um monólogo para o teatro. “A peça surgiu de um incômodo com a minha própria vida naquele momento. Tudo parecia meio programado, e eu não queria nada do que estava programado”, contou. Perto dos 30 anos e refletindo sobre o futuro, ela frequentemente era lembrada sobre a importância de “chegar lá”. “Por mais que estivesse trabalhando como atriz e roteirista, minha essência como artista ainda não tinha aparecido aos olhos da sociedade e dos meus familiares.”

Suzana Pires em cena do filme “De Perto Ela Não É Normal”, disponível no streaming do Telecine

Desta reflexão nasceu a peça (vista por 500 mil espectadores desde 2005) e agora o filme, o primeiro de Suzana como roteirista e produtora associada. De Perto Ela Não É Normal começa com sua personagem, Suzie, claramente sobrecarregada e presa a um casamento infeliz. Quando as filhas saem de casa, ela muda de vida e sai em busca de outras possibilidades, levando a comédia a questionar: do sucesso profissional ao amor romântico, da independência financeira ao corpo perfeito, as mulheres devem tentar alcançar o que a sociedade considera “chegar lá”? “Desde o começo escrevi pensando muito na questão da mulher, porque não somos treinadas para escolher caminhos”, afirmou. “Não sabia exatamente o que queria, mas sabia que não ia ficar esperando alguém me dizer o que fazer da minha vida.”

Dos palcos para as telas

Embora 15 anos separem a estreia da peça e a estreia do filme, Suzana conta que o texto sofreu poucas alterações. “Atualizei as piadas, mas em termos de questões [abordadas], não mudou nada”, explicou. “Não havia a palavra ‘sororidade’, mas havia a ideia de parceria entre mulheres. E as personagens, suas falas e o que representam – tudo isso já estava na peça.”

Suzana desenvolveu o filme junto à produtora Joana Henning, dona da Escarlate Conteúdo Audiovisual, e convidou a amiga Cininha de Paula para assumir a direção. Com longa carreira na TV Globo e diretora dos longas Crô em Família (2018) e Duas de Mim (2017), Cininha conhecia o texto da peça e tinha experiência no tipo de comédia que De Perto Ela Não É Normal buscava ser. E se alguns artistas brasileiros evitam comparações entre as comédias do cinema e da TV, Suzana fala tranquilamente sobre como o longa carrega influências televisivas no que diz respeito à linguagem, à estética e ao humor carregado.

“A gente é criado assistindo televisão. Temos esse dedo do melodrama, sim. Temos enquadramentos com pegada televisiva, sim, temos um humor com tinta forte, sim. Essa é a assinatura desse tipo de filme, e não vejo demérito nenhum nisso”, afirmou a atriz e roteirista, que também atua e escreve para a TV. Uma das piadas de De Perto Ela Não É Normal, por exemplo, é escalar Suzana tanto no papel de Suzie quanto no papel de uma tia muito mais velha. “Todo mundo sabe que sou eu ali, de peruca e maquiagem, interpretando a personagem de um jeito rasgado. O público adora isso e eu respeito muito a comunicação com o público.”

Cininha de Paula dirige uma cena no set de “De Perto Ela Não É Normal”

Suzana contou que há negociações para vender De Perto Ela Não É Normal ao mercado chinês e disse se sentir igualmente atraída por “comédias mainstream e filmes mais autorais” (ela atuou, por exemplo, em Casa Grande, de Fellipe Barbosa). “Uma experiência cinematográfica não anula a outra, nem é melhor ou pior do que a outra. São experiências diferentes, mas que estão contando histórias brasileiras”, concluiu.

Cláusula de inclusão

Suzana também é fundadora do Instituto Dona de Si, um acelerador de talentos femininos nas áreas de audiovisual, literatura, moda, gastronomia e games. Nos últimos três anos, o instituto atendeu cerca de mil mulheres com programas de mentoria e formação ligadas a empreendedorismo, e aproximou a atriz do debate sobre a igualdade de gênero no cinema.

Em De Perto Ela Não É Normal, Suzana e a produtora Joana Hanning decidiram adotar o chamado inclusion rider, termo que ganhou notoriedade em 2018, quando foi citado no palco do Oscar pela atriz Frances McDormand. Trata-se de uma cláusula de inclusão que estrelas de Hollywood podem colocar em seus contratos para exigir que a equipe de um filme atinja determinado nível de diversidade. Em outras palavras, atrizes e atores com grande poder de negociação condicionam sua participação em um projeto à inclusão de mais indivíduos de grupos pouco representados na equipe e/ou elenco.

Angélica, Gaby Amarantos e Ivete Sangalo atuam em “De Perto Ela Não É Normal”

Antes de aplicar a ideia no cenário brasileiro, Suzana pôde conversar com a produtora americana Fanshen Cox DiGiovanni, uma das criadoras da cláusula, que veio ao Brasil em 2018 para o Seminário Internacional Mulheres no Audiovisual, promovido pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). A produtora sugeriu dois modelos de uso do inclusion rider: primeiro, inverter estereótipos na seleção do elenco; segundo, quebrar ao menos dois “elos da equipe” que estivessem excessivamente masculinos.

No primeiro caso, Suzana citou como exemplo a personagem de uma importante advogada que é a mulher mais “poderosa” do filme. “Esse lugar é sempre ocupado por uma atriz loira que segue um determinado padrão. Decidimos quebrar isso chamando a Gaby Amarantos, que já era minha amiga”, afirmou. Gaby também teve um papel importante na aplicação do segundo modelo de inclusion rider: Suzana e Joana pediram a ela indicações de profissionais para a trilha sonora, uma das áreas em que decidiram contratar mulheres, e não homens. A escolhida foi Anna Tréa, que Suzana definiu como “genial”. “Queríamos uma mulher negra que escutasse o filme e trouxesse música para ele”, afirmou. “Os talentos existem, mas você precisa criar pontes para achá-los.” 

O outro “elo” foi a edição, que ficou a cargo de Karen Akerman, montadora muito experiente mas que ainda não tinha feito comédias como De Perto Ela Não É Normal. “Sabíamos que a edição não ficaria igual a de todas as outras comédias, que ia ter seus movimentos próprios, e a Karen foi incrível nisso”, disse Suzana, acrescentando que, no total, 70% da equipe foi formada por mulheres. “A cláusula não é fácil de usar, mas no próximo filme tanto eu quanto a Joana vamos estar azeitadas para fazer a revolução completa”, brincou.

De Perto Ela é Normal é apenas o primeiro de três projetos que Suzana vai desenvolver para a Escarlate. Após anos dividindo-se entre texto e atuação no teatro e na TV, hoje ela considera que seu lado atriz está a serviço de seu lado autora: “Vemos muitas artistas na Inglaterra e no Estados Unidos respondendo por seus conteúdos com muita propriedade, e acho que a gente pode fazer isso tão bem quanto no Brasil.”

Às mulheres que querem trabalhar no cinema, ela deu um conselho: “Estudem, se experimentem, arrisquem. Ninguém vai te dar seu espaço, você é que precisa ir atrás dele.”


* Este texto foi produzido pelo Mulher no Cinema e é patrocinado pelo Telecine

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