Diretoras recomendam documentários nacionais dirigidos por mulheres

Você sabia que em 7 de agosto se comemora o Dia Nacional do Documentário Brasileiro? Criada para dar mais visibilidade ao gênero, a data foi definida pela Associação Brasileira de Documentaristas e homenageia o dia de nascimento do cineasta baiano Olney São Paulo (1936-1978).

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De acordo com levantamento do Mulher no Cinema a partir de dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), dos 185 longas-metragens brasileiros que estrearam em circuito comercial em 2018, 85 eram documentários. Destes, 31 foram dirigidos ou codirigidos por mulheres – cerca de 36,4%. Para efeito de comparação, no mesmo ano as mulheres dirigiram ou codirigiram 25,2% dos longas de ficção.

Para marcar o Dia Nacional do Documentário Brasileiro e estimular os leitores a conhecerem o trabalho de mais documentaristas brasileiras, o Mulher no Cinema reuniu uma lista bem especial, na qual as recomendações são feitas pelas próprias cineastas. A reportagem convidou as diretoras a responder: qual documentário brasileiro dirigido por uma mulher você recomenda e por quê? 

Elas puderam escolher filmes de qualquer ano, de curta ou longa-metragem. Confira as dicas e aproveite, também, para assistir aos documentários das diretoras que enviaram seus depoimentos:

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Imagens dos filmes Mulheres Negras: Projetos de Mundo e O Caso do Homem Errado

Camila de Moraes, diretora de O Caso do Homem Errado
“Recomendo o curta Mulheres Negras: Projetos de Mundo (2016), dirigido por Day Rodrigues em parceria com Lucas Ogasawara. O documentário conta com depoimentos de nove mulheres negras: Djamila Ribeiro, Ana Paula Correia, Aldenir Dida Dias, Preta Rara, Nenesurreal, Francinete Loiola, Luana Hansen, Monique Evelle e Andreia Alves. Por meio de suas vivências, elas nos levam a refletir sobre a sociedade e o que é ser uma mulher negra no Brasil. O documentário ganhou diversos prêmios e pode ser visto no Spcine Play. Assim como as vozes potentes dessas mulheres, Day mostrou sua presença no audiovisual brasileiro e revelou o que é ser um projeto de mundo. Seguiu na carreira de documentarista assinando a direção, roteiro e produção de outros filmes, como Uma Geografia das Desigualdades (2019). Também fez codireção e direção de conteúdo em Como Ela Faz? e apoiou a pesquisa de Dentro da Minha Pele, previstos para 2020. Movendo a estrutura da sociedade, Day Rodrigues compartilha conosco o seu fazer artístico na construção de novas narrativas, reflexo de uma caminhada de mais de dez anos que vem de experiências em processos identitários, negro e LGBTQIA+. E assim, nós, o público, somos vitoriosos em poder degustar estas obras.”

Day Rodrigues, diretora de Mulheres Negras: Projetos de Mundo
“Um documentário importante para pensar a cinematografia brasileira realizada por mulheres é O Caso do Homem Errado (2018), dirigido e roteirizado por Camila de Moraes. Pela sinopse, trata-se da história de Júlio César, operário negro gaúcho confundido com um assaltante e executado pela Polícia Militar do Rio Grande do Sul em 14 de maio de 1987. Porém, se pensarmos através da ótica do racismo estrutural, temos aqui a narrativa via vidas negras brasileiras, não só pelas estatísticas, e sim pela memória e reconstrução dos fatos, narrados por uma mulher negra e ativista também. O fato de Camila assinar a direção e roteiro, além de contar com outras pessoas negras na equipe – a gaúcha Mariani Ferreira assina roteiro e produção -, nos possibilita um ganho para o debate do antirracismo e da ampliação e deslocamento do fazer audiovisual hegemônico somente por pessoas brancas privilegiadas. Assim, vejo o filme da Camila e equipe como um dos expoentes das artes e vozes dos movimentos por equidade no Brasil e no mundo, com a maestria das grandes cineastas. Camila faz filme como quem conta história, denuncia em crítica e liberdade de linguagem, não se prende em planos estanques, e sim caminha ao lado e torna-se personagem quando a sua presença como diretora é fundamental.”

Imagens dos filmes Motriz, Travessia e Torre das Donzelas

Edileuza Penha de Souza, diretora de Filhas de Lavadeiras 
“Seriam muitos os documentários dirigidos por mulheres, em especial por diretoras negras, que gostaria de enumerar aqui. Na difícil tarefa de votar em apenas um, minha escolha vai para O Caso do Homem Errado, de Camila de Moraes. O documentário investiga minuciosamente a morte de Júlio César de Melo Pinto, homem, negro, jovem, assassinado pela polícia do Rio Grande do Sul em 14 de maio de 1987. O longa-metragem nasceu em 2015, quando Camila, ainda na universidade, cursava a disciplina de jornalismo investigativo. Ao reconstituir os episódios da execução de Júlio César, Camila traz o olhar, a técnica e a sensibilidade peculiar a uma mulher negra cineasta. O Caso do Homem Errado é cinema de gente negra para o mundo, fiel ao movimento que desde Zózimo Bulbul se consolida como um cinema de desde dentro, para desde fora, um documentário expositivo e investigativo, demarcado pelo argumento “Vidas negras importam”. A escolha de O Caso do Homem Errado passa também por entender que o cinema de Camila se articula e se assenta na Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), nascida da necessidade de fomentar a diversidade racial em toda a cadeia produtiva do audiovisual, e cuja política se estrutura na concepção, produção, distribuição e exibição do audiovisual, com o compromisso de combater o racismo, as discriminações e os preconceitos. O filme é um clamor por justiça e alívio do desamparo de milhares de famílias negras, que como a de Júlio César, querem o direito de abraçar seus filhos.”

Everlane Moraes, diretora de Caixa D’Água: Qui-lombo É Esse?
“O documentário Motriz (2018), dirigido por Taís Amordivino, é simplicidade e poesia. Uma ode a uma mãe negra. Ao mesmo tempo em que a diretora olha a sua mãe, a sua mãe olha a si mesma e reflete sobre a velhice e o amor. A interação entre esses dois corpos negros e a câmera é de uma intimidade provocadora. A diretora explica à mãe sobre seu ofício de cineasta. A mãe, mesmo admitindo não entender ao certo o que é a profissão, se orgulha de juntar dinheiro para a formatura da filha. Instantes cotidianos são puro amor e admiração no olhar de uma para com a outra. O empoderamento desses corpos é um crescente de emoções que particularmente me levaram ao embrulho no coração. O choro contido e gratificante da mãe da cineasta é o resultado de camadas que atravessam muito profundamente a realidade dos negros que se inseriram em espaços de poder simbólico – como o cinema. A utilização do texto Olho D’água, de Conceição Evaristo, fecha o resultado do poder que essas novas narrativas negras, permeadas de tanta ancestralidade, terão na construção de registros íntimos dos corpos negros no cinema autoral.”

Fernanda Pessoa, diretora de Histórias que Nosso Cinema (não) Contava
“Um documentário que me marcou e sempre volta à minha memória é o curta Travessia (2018), de Safira Moreira. Em apenas cinco minutos, de forma simples e poética, o filme traz uma reflexão profunda sobre a escassez de imagens de arquivo de famílias negras brasileiras. Com uso de um poema de Conceição Evaristo, fotografias antigas e imagens atuais, Safira reafirma a potência de uma mulher negra na frente e atrás das câmeras. O filme está online no Vimeo da própria diretora – vale a pena conferir.”

Imagens dos filmes Era o Hotel Cambridge, Kbela e Notícias de uma Guerra Particular

Helena Solberg, diretora de A Entrevista
“Sinto sempre uma hesitação em nomear ‘o melhor filme’ quando estamos falando de uma cinematografia extensa como a brasileira. No caso de filmes dirigidos por mulheres, não se torna mais fácil. A linguagem mesmo do documentário parece se adaptar à tradição dos primeiros textos literários existentes de mulheres, que são na sua grande maioria, os diários e a escrita memorialista. No cinema, é interessante como as diretoras parecem navegar com extrema facilidade no documentário que recorre e se apropria da ficção como um recurso legitimo para sua narrativa. Um exemplo extremamente bem-sucedido é Torre das Donzelas (2018), de Susanna Lira. Isso dito, Era O Hotel Cambridge (2016), de Eliane Caffé, é um filme corajoso e que assume os riscos de se colocar nessa vertente que é a que mais me interessa.”

Juliana Vicente, diretora de Leva
Kbela (2015) é o filme de estreia de Yasmin Thayná e eu me lembro exatamente de quando o vi pela primeira vez. Meu coração se encheu de emoção, fui atravessada e arrebatada, estava ali a potência que vem junto com a possibilidade de realizar cinema e contar nossas histórias da forma que a gente acredita. É um documentário experimental que se comunica com a nossa alma diretamente e, nesse sentido, ela traduz de forma brilhante a nossa existência como mulheres pretas e invoca a rede de afeto como espaço de cura – que pode ser sentida como parte do processo de feitura do filme assim como é para nós espectadoras. Yaya é potência e ainda fará muito pelo cinema brasileiro com uma efetiva identidade de Brasil.”

Letícia Simões, diretora de Casa
“Gostaria de recomendar Notícias de uma Guerra Particular (1999), dirigido por Kátia Lund, em co-direção com João Moreira Salles. O longa-metragem oferece um panorama agudo e aguçado sobre a questão do tráfico de drogas no Rio de Janeiro – no Brasil, como um todo, ao fim -, propondo um sólido ponto de vista sobre a questão da legalização e do impacto desigual sobre a população negra e marginalizada. Lembro-me do impacto ao assisti-lo à primeira vez e, com o passar dos anos, retornei à sua forma capitular muitas vezes, para compreender a sua construção de argumentos e definição do ponto de vista. Recomendo fortemente.”

Imagens dos filmes Ôrí e A Entrevista

Lilian Solá Santiago, diretora de Família Alcântara
“Nesse contexto de pandemia, onde se escancara que o governo de nosso país é fruto de uma indissociável aliança entre capital, racismo estrutural e supremacia branca, recomendo fortemente Ôrí (1989), de Raquel Gerber. O roteiro e a narração são da historiadora Maria Beatriz Nascimento, uma mulher negra que precisa ser ouvida, falecida precocemente em 1995. Somos levados, por seu timbre doce e preciso, a refletir sobre a relação entre território e corpo, no que se refere à população negra brasileira. Para Beatriz, o corpo negro na contemporaneidade se define pela experiência da diáspora e de deslocamentos – da África para a América, do campo para a cidade, entre outros -, e nesse processo, vai perdendo sua própria imagem, vai se enfraquecendo, se perdendo de si mesmo. Os resultados são grandes contingentes da população negra encarcerados – na prisão, em hospitais psiquiátricos, em condições sub-humanas. O quilombo, para ela, seria o lugar de reagrupamento para aqueles que já se encontram desenraizados, lugar de referência transitório, onde negras e negros se fortalecem, unem forças, ressignificam suas existências. Então a ideia de quilombo aqui é ampla, pode ser desde uma escola de samba, um lugar de culto afro, um sarau, um baile negro, um coletivo de mulheres, entre outros agrupamentos que empoderam esses corpos, a princípio deslocados de suas origens. E esse discurso, potente por si só, no filme ainda é amparado por imagens belíssimas, realizadas por grandes fotógrafos como Adrian Cooper e Pedro Farkas, ao longo de dez anos de produção no Brasil e em países africanos. E, como se não bastasse, a música é de Naná Vasconcelos. Ôrí é um filme lindo, necessário, profundo e transformador.”

Lucia Murat, diretora de Que Bom Te Ver Viva
“Gostaria muito de indicar A Entrevista (1966), de Helena Solberg. Este foi um dos primeiros filmes – talvez até o único filme – a ser dirigido por uma mulher no Cinema Novo. E foi, também, um dos primeiros filmes brasileiros a tratar sobre a questão feminina, e com um olhar muito interessante.”

Imagem dos filmes Piripkura e Justiça

Paula Gomes, diretora de Jonas e o Circo Sem Lona
“Recomendo o documentário Piripkura (2017), de Mariana Oliva, Renata Terra e Bruno Jorge. É um filme sobre liberdade, afeto, resistência. E que, ao olhar para os seus personagens, Pakyî e Tamanduá, dois sobreviventes do povo Piripkura que vivem isolados da sociedade e cercados por fazendeiros e madeireiros, consegue também nos fazer olhar para nós mesmos. É um filme potente, que me fez sorrir e chorar, e que além de falar sobre a relevância da causa indígena, também nos permite senti-la. Não deixem de ver!”

Sandra Kogut, diretora de O Passaporte Húngaro
“Escolho o filme Justiça (2004), de Maria Augusta Ramos. Foi o primeiro filme dela que eu vi. Na época eu morava em Paris e não conhecia o trabalho da Guta. Uma curadora insistiu que eu fosse ver o filme, e se ofereceu até para ficar com meu bebê enquanto eu assistia. Ela disse que eu ia adorar. E ela tinha razão! Fiquei encantada com o rigor, a maturidade, a precisão. Não tinha nada sobrando, tudo precisava estar ali. Desde então adoro o trabalho da Guta, de quem fiquei amiga. A sobriedade talvez seja a coisa mais difícil de se conseguir num documentário, apesar de ser uma das qualidades mais importantes. Nos filmes da Guta sempre tenho a impressão que ela foi lá corajosamente e sacudiu tudo: só ficou o que tinha mesmo que ficar.”

Imagens dos filmes Que Bom Te Ver Viva e Entre a Luz e a Sombra

Susanna Lira, diretora de Torre das Donzelas
“Minha escolha é Que Bom Te Ver Viva (1989), dirigido por Lucia Murat. Esse documentário é um marco no cinema brasileiro. A coragem da cineasta em falar sobre a memória feminina da resistência à ditadura é admirável. Com talento, sensibilidade e colocando aspectos de sua própria história em cena, a diretora nos emociona e nos faz refletir. Aliás, o trabalho de Lucia Murat é um farol que me inspira sempre.”

Tatiana Lohmann, diretora de Slam: Voz de Levante
“Escolhi Entre a Luz e a Sombra (2009), de Luciana Burlamaqui, um filme que ‘investiga a violência e a natureza humana a partir da história de personagens que tiveram seus destinos cruzados no complexo Carandiru’, diz a sinopse. E ainda: ‘Ao longo de sete anos o documentário acompanha os passos da dupla de rappers 509-E, formada por Dexter e Afro-X dentro do presídio; da atriz Sophie Bisilliat, que dedica sua vida para humanizar o sistema carcerário; e de um juiz que acredita em um meio de ressocialização mais digno para os prisioneiros’. O filme aborda essas histórias e esse campo temático espinhoso com intimidade, de perto. Eu demorei para me deixar fisgar por ele, pois o modo de abordar as situações, que me lembrava uma grande reportagem, não me seduziu de cara. Mas depois de atravessar as suas duas horas e meia de duração, impossível não ser tocada pela narrativa que dá conta, através da história dramática destas pessoas, de abordar o desumano sistema carcerário brasileiro, num escopo que passa pela rebelião do Carandiru, pela criação do PCC e pelo fim do presídio. Num primeiro momento, os sete anos durante os quais a diretora acompanhou a história me pareceram resultar num filme longo demais. Mas reconheci ao final que, por nos colocar em contato com uma curva narrativa tão longa, particularmente nas trajetórias de Dexter e Sophia, permite chegar numa complexidade que integra muitas nuances. Sem julgar, entre a luz e a sombra. Muito humano. E ficou forte na minha memória a relação entre Dexter e Sophia. O filme também é uma história de amor, marcada pela desigualdade de contextos de classe e raciais. Ela, uma mulher branca de classe média alta. Ele, um homem negro criado na favela. Ela livre, ele preso. O rompimento dos dois é revelador de um choque de culturas. Me parece um dos aspectos muito reveladores de contradições cruéis da sociedade brasileira que o filme traz. E uma feliz escolha da diretora, ela mesma branca, provavelmente de classe média, que pôde abordar um universo que lhe é estranho pela mediação de uma personagem que se relaciona com este universo por um prisma cultural semelhante.” leia o depoimento completo de Tatiana Lohmann

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