Anne Mota sobre “Alice Júnior”: “Pessoas trans precisam protagonizar suas histórias”

Anne Celestino Mota tinha 12 anos quando encontrou, no YouTube, um filme que marcaria sua vida. Era My Secret Self, um programa documental exibido pela rede americana ABC em 2007 e que conta histórias de pessoas trans com seis, dez e 16 anos de idade. Até então, Anne não conhecia o termo “transgênero”. Mas ali, diante da tela do computador, entendeu que transgênero era o que ela era.

Dez anos depois, agora é Anne quem está na tela. A jovem atriz é a estrela de Alice Júnior, longa que estreia nesta sexta-feira (11) nas plataformas Google Play, iTunes, Looke, Now, Oi Play, Vivo Play e YouTube Play. Antes de a pandemia adiar a estreia nos cinemas, o longa dirigido por Gil Baroni foi selecionado para a mostra Generation do Festival de Berlim e rodou por festivais nacionais e internacionais. No de Brasília, por exemplo, Anne Mota fez história como a primeira mulher trans a ganhar o troféu de melhor atriz.

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Em algumas das exibições pré-pandemia, ela pôde perceber o impacto do filme em jovens que lhe procuravam após a sessão, chorando. “Amo o fato de que agora estou do outro lado”, contou Anne, hoje com 22 anos, em entrevista por telefone ao Mulher no Cinema. “Quando era adolescente, via adultos trans na mídia e pensava: ‘eu também posso chegar lá’. Fico extremamente emocionada em perceber que estas crianças se sentem representadas e veem a si mesmas através de mim e da minha imagem.”

Anne Celestino Mota no Festival de Berlim, em fevereiro de 2019; e no Festival de Brasília, em novembro,
recebendo o prêmio de melhor atriz ao lado do diretor Gil Baroni – Fotos: Divulgação Berlinale e Thaís Mallon

A jornada de Anne até a telona começou em 2016, quando a equipe de Alice Júnior usou as redes sociais para convidar atrizes trans de Curitiba (PR) para um processo de testes. Apesar de morar em Recife (PE), Anne decidiu se inscrever, sem saber que sua mãe também já tinha entrado em contato com o roteirista Luiz Bertazzo para comunicá-lo do interesse da filha, na época com 17 anos.

A jovem atriz tinha acabado de criar o canal Transtornada, que representaria um ponto em comum com a personagem: no filme, Alice Júnior é uma youtuber, e parte do processo de casting pedia justamente que as candidatas gravassem vlogs com trechos do roteiro. Anne gravou seus vídeos, conversou com a equipe do longa pelo Skype e foi para Curitiba com a mãe para testes finais. Finalmente, foi selecionada.

Alice Júnior é um filme no melhor estilo Sessão da Tarde: uma comédia adolescente leve e despretensiosa, com linguagem pop que incorpora memes e outros elementos da internet. Quando seu pai consegue um novo emprego, Alice tem de se mudar de Recife para Araucárias do Sul e frequentar uma escola que além de nova, é católica e conservadora. A mudança torna-se ainda mais indesejada por atrasar os planos de Alice de realizar seu maior desejo: dar o primeiro beijo. É, ao mesmo tempo, um filme com o qual qualquer adolescente pode se identificar e que também aborda questões próprias da experiência trans. Há cenas, por exemplo, em que Anne é impedida de usar o banheiro feminino e tem de ouvir os professores se recusarem a chamá-la pelo nome social. Dia após dia, ela sofre um tipo de bullying que tem nome específico: transfobia.

Anne Celestino Mota, Surya Amitrano e Matheus Moura em cena de “Alice Júnior”

Homens cisgnêros, o diretor Gil Baroni e o roteirista Luiz Bertazzo ouviram e incorporaram muitas considerações de Anne. Ela foi convidada a opinar sobre o roteiro antes mesmo de ser selecionada, e foi entrevistada por Baroni e Bertazzo durante a viagem para Curitiba, com algumas de suas falas sendo aproveitadas no filme. “A partir dali, passei a dar uma consultoria de roteiro. Nos reunimos especificamente para falar do texto e fazer leituras”, contou a atriz, que também foi creditada como produtora associada. “Pude alterar algumas coisas, orientar quanto a termos técnicos e explicar como certas falas poderiam ser reformuladas para fazer a vivência trans dessa história ser ainda mais real.”

Uma das alterações propostas por Anne foi na cena em que um amigo de Alice diz, em tom de suposto elogio, que ela “nem parece trans”. “A resposta da minha personagem era bem básica e superficial, mas fiz uma problematização maior que foi incorporada ao roteiro”, contou a atriz. Outras alterações buscaram garantir o bem-estar da atriz, como em uma cena bastante dramática que se passa durante uma festa na piscina. “Inicialmente era para eu fazer a cena de biquíni, mas na época, não me sentia confortável. Falei com a produção e o biquíni foi trocado por um cropped [blusa mais curta]“, contou.

Anne ainda participou do processo de seleção de outros integrantes do elenco, podendo fazer perguntas como “o que é transfobia?”. “Não queríamos apenas bons atores, mas também pessoas que tivessem envolvimento com a causa. Não podíamos admitir uma pessoa transfóbica em um filme que falasse sobre tanto amor”, afirmou.

Uma das relações mais amorosas do filme é a de Alice com o pai, Jean (Emmanuel Rosset), seu grande amigo e maior apoiador. É uma experiência familiar diferente da vivida por muitas pessoas trans, inclusive a própria Anne, que ficou anos sem falar com o pai, mas hoje se diz feliz com o relacionamento que tem com ele. “De forma geral, as primeiras pessoas que dão apoio e suporte aos filhos LGBT são as mães”, afirmou a atriz. “Por isso, é muito especial que no filme Alice possa receber isso do pai.”

Anne Celestino Mota e Emmanuel Rosset em cena de “Alice Júnior”

Depois das filmagens de Alice Júnior, Anne voltou para o Recife com a certeza de que queria seguir na carreira artística. Ela começou a fazer faculdade de Produção Audiovisual, mas trocou pelo curso de Artes Cênicas porque a atuação, e não o trabalho nos bastidores, é seu grande interesse.

Apesar de estar no início da carreira e de ter tido uma primeira experiência tão positiva com Alice Júnior, Anne está ciente de que o audiovisual também pode ser um universo machista e transfóbico. “Tanto o cinema quanto o teatro têm de aprender que as pessoas trans precisam protagonizar suas histórias”, afirmou. “Quando um homem cisgênero interpreta uma mulher trans ou travesti, é como se fôssemos a caricatura de uma mulher ou uma espécie de gay afeminado. Não é isso que somos. Nossa identidade é válida e tem de ser valorizada.” 

Ela torce, também, para que as narrativas possam ser cada vez mais variadas, levantando questões urgentes sem reduzir a existência trans ao trauma. “O Brasil é o país que mais mata pessoas trans: nossa expectativa de vida é de 35 anos. Isso faz com que os filmes que escancaram a violência sejam necessários. Mas também é importante mostrar que a vida trans não é feita apenas de absurdos, violências e tristezas.” 

A expectativa de Anne, agora, é pela resposta do público ao longa e quanto à possibilidade de ele representar, para alguém, o que My Secret Self representou para ela. “Assim como aquele documentário foi importante para mim, penso que Alice Júnior pode mudar vidas”, opinou. “Se um filme como Alice Júnior existisse na minha infância, eu teria sido outra pessoa.”


Luísa Pécora é jornalista e criadora do Mulher no Cinema

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