Lisa Azuelos e Thaïs Alessandrin levam relação de mãe e filha para a tela em “Meu Bebê”

A diretora francesa Lisa Azuelos estava começando a lidar com a ideia de que a filha mais nova sairia de casa quando assistiu ao filme Boyhood (2014), de Richard Linklater. Ao se identificar com a personagem de Patricia Arquette, ela se preocupou com a possibilidade de uma despedida “violenta demais” e decidiu se preparar: munida de um iPhone, começou a filmar tudo o que podia antes de a menina partir para o exterior.

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Estes vídeos caseiros inspiraram Meu Bebê, comédia que está em cartaz no Festival Varilux de Cinema Francês. No filme, Sandrine Kiberlain interpreta Héloïse, alter ego da cineasta, uma mulher divorciada e mãe de três filhos lidando com a partida da mais jovem, Jade. Em outro paralelo entre vida e arte, quem interpreta a garota é Thaïs Alessandrin, filha da diretora com o também realizador Patrick Alessandrin. “Nem conversamos sobre quem iria interpretar a filha, porque era óbvio que seria eu”, contou Thaïs, em entrevista ao Mulher no Cinema durante a passagem de mãe e filha por São Paulo para o Varilux. Creditada como colaboradora do roteiro, a atriz ajudou a criar principalmente as cenas envolvendo o elenco mais jovem. “Assistimos juntas a todos os vídeos que ela tinha feito e li todas as versões do roteiro. Foi um processo muito conjunto.”

Tanto Thaïs quanto Lisa concordaram com algo que a diretora francesa Sophie Fillières disse em recente entrevista ao Mulher no Cinema: trabalhar com alguém muito próximo é, na verdade, mais natural do que trabalhar com outras pessoas. “É como dar continuidade à história que contamos uma para a outra todos os dias”, afirmou Lisa. “Colocamos nosso trabalho nas nossas vidas e nossas vidas no nosso trabalho.”

Mas enquanto Sophie Fillières disse que a filha a questionou como outras atrizes não fariam, a dupla de Meu Bebê afirma ter trabalhado “em total acordo o tempo todo”. “Não acho que a questionei muito”, afirmou Thaïs, que elogiou o estilo de filmagem da mãe. “Ela deixa muito espaço para improvisação. Em muitos momentos, apenas diz mais ou menos o que temos de fazer e deixa as coisas acontecerem.” 

Sandrine Kiberlain e Thaïs Alessandrin em “Meu Bebê”

Filha da cantora e atriz Marie Laforêt, Lisa Azuelos começou a carreira nos anos 1990 e ficou conhecida principalmente pela comédia Rindo à Toa (2008). Sucesso de bilheteria na França, o filme ganhou remake americano estrelado por Miley Cyrus e também dirigido pela francesa, cujos trabalhos ainda incluem Um Reencontro (2014) e Dalida (2016). 

A diretora afirma que seus filmes buscam “encorajar as mulheres a nunca sentir culpa”, seja “por transar, por não cuidar dos filhos, por trabalhar ou por qualquer outra razão”. “Há uma culpa genérica, um monstro dentro das mulheres, que sempre precisa ser alimentado”, afirmou. “Mesmo em um país como a França, onde a igualdade de gênero é assegurada por lei, as mulheres ainda sentem que têm de alimentar os filhos, que é culpa delas se a geladeira está vazia, que precisam levar a criança ao parque aos sábados para que aproveite as árvores. Há sempre um monstro ali dentro, um juiz que nunca está satisfeito, e nós temos de matar esse monstro.”

Azuelos também é fundadora do movimento Together Against Gynophobia, criado em 2016, que busca chamar a atenção para a violência contra a mulher e o fato de “o mundo não deixar o feminino emergir”. Segundo ela, trata-se de uma versão “sem hashtag e menos Instagramável” do #MeToo. “Na verdade, o #MeToo diz ‘eu sofri e há um problema’, o que é ótimo, porque as pessoas precisam estar cientes disso. Mas eu queria falar sobre o medo do feminino”, disse. No momento, ela está repensando o movimento e quer focar em como homens e mulheres podem “encontrar harmonia juntos”. Recentemente, dirigiu o documentário YoLove, no qual adolescentes falam sobre amor, sexualidade e gênero. “Se não educarmos os jovens, nada vai mudar”, opinou.

Lisa Azuelos e Thaïs Alessandrin na abertura do Festival Varilux no Rio de Janeiro

Aos 20 anos, Thaïs continua morando no exterior – mais precisamente em Montreal, no Canadá – e só voltou a viver na França durante as filmagens e o período de divulgação do filme (“agora terei de achar outra estratégia”, brincou a mãe). Passar para a direção, por enquanto, não está nos planos da jovem atriz. “Dirigir me parece difícil demais, mas gostaria muito de escrever”, afirmou. “Talvez minha mãe possa dirigir meus roteiros. Gosto bastante da ideia de seguir com a colaboração familiar.”

Lisa também gosta, e acredita que Meu Bebê cumpriu o papel de ajudá-la a aceitar melhor a partida da filha. “Quando nossos pais ou amigos morrem, a primeira coisa que fazemos é ver fotos, vídeos, coisas que nos lembrem dos momentos que vivemos. Com esse filme, sei que fiz algo que sempre vai nos lembrar que tivemos aquela vida”, afirmou. “Agora, posso partir para a próxima fase.” 


Luísa Pécora é jornalista, criadora e editora do Mulher no Cinema

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