Com “Ataque dos Cães”, Jane Campion faz seu melhor filme desde “O Piano”

Ciente do risco de desencorajar a leitura deste texto, a primeira coisa que eu diria sobre Ataque dos Cães, o excelente novo trabalho de Jane Campion, é que quanto menos o espectador souber sobre o filme antes de assisti-lo, melhor. Não se trata de evitar spoilers, porque o longa premiado em Veneza não se apoia em reviravoltas narrativas nem no suspense em torno de uma questão específica. Mas o grande valor da experiência está em acompanhar o modo como a diretora desenvolve a trama lentamente, revelando novas camadas de significado da primeira cena ao momento imediatamente anterior à subida dos créditos finais.

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Aos que prosseguirem com a leitura, prometo evitar dizer muito. Ataque dos Cães é uma adaptação de Jane Campion para o romance escrito por Thomas Savage em 1967 e ambientado em meados dos anos 1920 no rancho dos irmãos Burbank em Montana, nos Estados Unidos. Os Burbank talvez já tenham sido parceiros próximos, mas agora se comportam de forma distinta: Phil (Benedict Cumberbatch) segue o modelo do cowboy machão, exalando brutalidade e inspirando medo e respeito em todos ao redor, enquanto George (Jesse Plemons) é sociável, trata as pessoas com educação e parece em busca de algo mais.

De passagem por uma pequena cidade, George conhece a viúva Rose (Kirsten Dunst), dona de uma pousada e mãe do adolescente Peter (Kodi Smit-McPhee). Os dois se apaixonam, se casam, matriculam Peter em um colégio interno e pegam a estrada em direção ao rancho, dando início a uma vida a dois que promete ser feliz. Numa bonita cena, o casal está fazendo um piquenique em um campo cercado por montanhas quando Rose tira o marido para dançar. Cantarolando uma melodia simples, ela ensina alguns passos a um homem que claramente nunca viveu um momento como aquele. Quando George interrompe a dança e Rose pergunta o que houve, a resposta vem com lágrimas nos olhos: “Eu estava pensando sobre como é bom não estar sozinho”.

Jesse Plemons e Kirsten Dunst em cena de “Ataque dos Cães” – Foto: Kirsty Griffin/Netflix

O momento de carinho contrasta com o que vem a seguir. Basta que Rose chegue ao rancho para que a dança no campo e a promessa de felicidade pareçam coisa do passado. Pouco à vontade no novo lar, ela vê a mansão se transformar num espaço cada vez mais claustrofóbico conforme é abalada pela presença dominadora de Phil, que dorme sob o mesmo teto e sabe como afetá-la mesmo sem dizer nada.

Uma cena sem diálogos exemplifica bem tanto o modo como Phil declara guerra à Rose quanto a sutileza com a qual Campion cria um clima de tensão constante. Para impressionar o governador que irá a um jantar na fazenda, George insiste para que Rose toque uma música ao piano. Ela protesta alegando pouco talento e falta de prática, mas atende ao marido e se põe a treinar. Sempre que comete um erro, Rose para de tocar e volta ao início da partitura. Em uma das pausas, ouve o som de um banjo no andar de cima da casa tocando a mesma música sem qualquer hesitação. A cada novo erro de Rose, o banjo de Phil soa melhor e mais alto, numa espécie de duelo musical (estamos, afinal, em um filme de faroeste) que é pura pressão psicológica.

A tortura continua quando Peter visita a fazenda durante as férias escolares. Tímido, sensível e também alvo dos ataques de Phil, o garoto não demora a notar o profundo sofrimento da mãe. “Ele é só um homem, Peter”, diz Rose, tentando amenizar a situação. “Apenas mais um homem.”

Kirsten Dunst em cena de “Ataque dos Cães” – Foto: Divulgação/Netflix

Ataque dos Cães é o primeiro filme de Campion que tem um homem como protagonista e aquele em que olha mais de perto para a masculinidade. Ao mesmo tempo, o filme também dá continuidade ao interesse da diretora por jogos de poder e manipulação, principalmente os que se estabelecem entre homens e mulheres ou entre integrantes de uma mesma família. Todos os seus longas exploram estas relações de alguma maneira, incluindo Retrato de uma Mulher (1996), Fogo Sagrado! (1999), Em Carne Viva (2003) e O Piano (1993), que lhe rendeu uma histórica Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Nesse sentido, a tradução em português para The Power of the Dog (que em tradução literal seria “poder do cão”) deixa um pouco a desejar. A escolha por Ataque dos Cães é correta por repetir o termo usado na obra à qual o título faz referência, mas incompleta por excluir aquela que é a palavra-chave da trama: poder. Toda a narrativa avança a partir das relações de poder entre os diferentes personagens, que se alternam e levam o espectador a se perguntar quem está no comando de quem. Amparados pela direção precisa de Campion, os quatro atores principais aproveitam muito bem as nuances do roteiro, especialmente Cumberbatch e Dunst. Ele faz disparado o melhor trabalho da carreira, e ela mergulha mais fundo na melancolia e no desespero contido com o qual já se destacara em O Estranho que Nós Amamos (2017), de Sofia Coppola.

A diretora Jane Campion e o assistente de direção Phil Jones no set de “Ataque dos Cães” – Foto: Kirsty Griffin/Netflix

Ataque dos Cães mostra que o costumeiro cuidado de Campion com todos os aspectos da produção segue impecável. Chamam a atenção a sombria trilha sonora de Jonny Greenwood (também responsável pela música de Spencer e Licorice Pizza, outros aguardados lançamentos dos próximos meses) e a fotografia da australiana Ari Wegner, que trabalhou em Zola (2020) e Lady Macbeth (2016) e cuja carreira tem tudo para decolar a partir de agora. Ataque dos Cães é um lançamento da Netflix e chegará à plataforma de streaming em 1º de dezembro, mas quem assistir ao filme nos poucos cinemas em que ele entrou em cartaz no Brasil terá a dimensão completa da bem-sucedida colaboração entre Campion e Wegner. Seja nas cenas dentro da mansão, seja nas amplas paisagens externas (filmadas na Nova Zelândia, terra natal da diretora), a dupla traduz a tensão narrativa em imagens que evocam ameaça e beleza em igual proporção.

Campion não é o que se chamaria de uma cineasta prolífica: aos 67 anos, está lançando seu oitavo longa-metragem e o primeiro em mais de uma década. No tempo em que ficou longe do cinema, dirigiu as duas temporadas da série Top of the Lake, separadas por um intervalo de cinco anos. A impressão é a de que Campion só se propõe a contar uma história quando realmente tem algo a dizer, e quando há tempo e recursos necessários para desenvolver o projeto. Ataque dos Cães reflete a dedicação e a maturidade que estão por trás das câmeras –  um filme de duas horas e seis minutos de duração no qual nada sobra nem falta, e que se iguala a O Piano como a obra-prima de uma diretora em pleno controle de sua arte.

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Este filme passa no teste de Bechdel-Wallace“Ataque dos Cães”
[The Power of the Dog, Reino Unido/Nova Zelândia/Austrália/EUA/Canadá, 2021]

Direção: Jane Campion
Elenco: Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Jesse Plemons.
Duração: 126 minutos


Luísa Pécora é jornalista e criadora do Mulher no Cinema.

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