Virginie Gourmel e o desafio de abordar depressão em ‘Garotas em Fuga’

A diretora Virginie Gourmel não optou por tema fácil na hora de escrever seu primeiro longa-metragem, Garotas em Fuga. Em cartaz na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o filme aborda a depressão entre adolescentes ao contar a história de Kathy, jovem internada contra a sua vontade após tentativa de suicídio.

Saiba mais: Acompanhe a cobertura completa da Mostra de Cinema de São Paulo
Leia também: Todos os filmes dirigidos por mulheres na programação da Mostra

O tema é sem dúvida atual: pesquisas têm alertado para o aumento dos casos de depressão entre jovens em diferentes lugares do mundo, inclusive no Brasil. Um estudo global divulgado em agosto pela Organização Mundial da Saúde (OMS), por exemplo, apontou que o suicídio é a segunda maior causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. Apesar disso, o assunto segue sendo tabu em diferentes esferas, inclusive a artística, algo que incomodava a diretora.

“É sempre melhor falar sobre o problema do que escondê-lo”, opinou Gourmel, em entrevista ao Mulher do Cinema durante sua passagem por São Paulo. Antes de escrever o roteiro, que não é autobiográfico, ela conversou com jovens que tiveram depressão e se dedicou a “pesquisar, ler, ouvir e observar”. “Para mim era importante entender, ou talvez não entender, mas apenas ouvir as palavras deles e tentar ser honesta com eles e comigo.”

Assista trechos da entrevista com Virginie Gourmel (ative as legendas em português):

De início, Garotas em Fuga informa pouco sobre o passado de Kathy – ou apenas o que ela mesma conta: sua mãe morreu e o pai não quis ficar com ela. Quando consegue fugir da clínica, ela sai em busca justamente do pai, que considera a única pessoa capaz de tirá-la da instituição. Nessa road trip desesperada, Kathy é acompanhada a contragosto por Nabila e Carole, colegas de quarto muito diferentes dela, mas com pontos similares em suas trajetórias.

Talentosas, as três atrizes principais – Lisa Viance, Yamina Zaghouani e Noa Pellizari – não são profissionais e foram selecionadas através de processos de casting na Suíça e na Bélgica, onde Gourmel vive e trabalha (ela nasceu em Lyon, na França). Segundo a diretora, houve grande dedicação aos ensaios e à preparação pré-filmagem, que buscou reforçar a intimidade entre as protagonistas. “O trio precisava funcionar”, explicou.

Além de trabalhar bem com jovens, Gourmel se sente especialmente atraída pelas histórias deles. “Gosto de todos os filmes sobre essa fase da vida”, afirmou. “Queria falar sobre adolescentes, seus problemas, o que amam, o que odeiam, do que têm raiva…É um momento de muitas emoções e sentimentos, é como uma montanha-russa.”

Imagem do filme “Garotas em Fuga”, de Virginie Gourmel

Antes de Garotas em Fuga, Gourmel tinha dirigido dois curtas-metragens. Para chegar ao longa, trabalhou em diferentes projetos num processo que representou um período de dez anos. “Mesmo se você tem um bom roteiro, não é certeza que vai conseguir filmar, ter o dinheiro suficiente ou encontrar um bom produtor”, afirmou.

Ela também se pergunta se as dificuldades tiveram a ver com o fato de ser mulher. Segundo ela, as cineastas da Bélgica têm se unido para tentar mudar a estrutura da indústria cinematográfica local, inclusive no sentido de assegurar oportunidades iguais de financiamento. “Estamos dizendo: ‘Ouçam, estamos aqui. Não se esqueçam de nós.'”

*

Consulte as sessões de Garotas em Fuga na Mostra


Luísa Pécora é jornalista, criadora e editora do Mulher no Cinema

Foto do topo: Claudio Pedroso/Agênciafoto

Deixe um comentário

Top