Henrika Kull sobre equipe feminina de “Jibril”: ‘Houve confiança entre nós’

Quão longe pode chegar um filme universitário? Jibril, o trabalho de conclusão de curso da alemã Henrika Kull, chegou à seção Panorama do Festival de Berlim e, agora, à Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Com equipe reduzida e formada principalmente por mulheres, o longa conta a história de Maryam, jovem alemã de origem árabe. Mãe solteira de três meninas, ela encontra o amor em Jibril, que está preso e a quem só pode visitar uma vez por semana.

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Socióloga antes de ser cineasta, Henrika trabalhou com presos alemães durante cerca de dez anos. Nesta pesquisa, se interessou principalmente pela vida amorosa destes homens, que em geral chegavam à prisão comprometidos, mas acabavam rompendo seus relacionamentos. Para entender o outro lado da história, Henrika foi à porta do presídio e conheceu Yasmin, uma das muitas mulheres e namoradas que estavam ali em um dia de visita. O primeiro passo foi fazer um curta sobre Yasmin; o segundo, realizar um longa-metragem ficcional.

“Senti que tinha de fazer o filme porque era algo universal: essa projeção, essa ilusão, todas as coisas colocadas naquela relação”, afirmou a diretora, em entrevista ao Mulher no Cinema durante passagem por São Paulo. “Amava a ideia de contar não apenas esta história, mas, uma história de amor universal, sobre o que fazemos quando nos apaixonamos.”

Como os demais estudantes da Film University Babelsberg Konrad Wolf, Henrika podia contar com ajuda financeira da universidade para realizar o curta-metragem de formatura. Ao optar por um longa, teve de se virar com pouco dinheiro e com a disponibilidade da equipe em acumular funções. A própria diretora, por exemplo, também foi responsável pela montagem e pela comida servida no set. “Foi uma aventura”, definiu.

Henrika encontrou Malik Adan, o intérprete de Jibril, pelo Instagram, e Susana Abdulmajid, a protagonista, em uma peça de teatro. O fato de a atriz ter origem árabe tem a ver com a pesquisa inicial em torno de Yasmin, e serve de pano de fundo para a história sem de fato tornar-se o tema do filme. Ao contrário de muitos longas europeus centrados em personagens de famílias imigrantes, Jibril encara Maryam como uma mulher alemã e europeia.

“Ela é uma como eu: tem desejos, medo, anseios, é apaixonada e quer viver a vida. A única coisa que a diferencia de mim, ou de outras mulheres com raízes alemãs ou europeias, é o fato de sua família ter origem no Iraque e de ela trazer algumas tradições consigo”, explicou. “Susana é uma atriz incrível e queria muito trabalhar com ela, mas sem problematizar sua origem. Queria que ela fosse como é: uma mulher moderna, interessada, aberta e linda.”

Imagem do filme “Jibril”, dirigido por Henrika Kull

Henrika afirma que a origem da atriz tem certa ligação com sua preferência por uma equipe majoritariamente feminina, sobretudo atrás da câmera. “Susana tem raízes árabes e é um pouco diferente no que diz respeito a questões relacionadas ao corpo. É mais difícil para ela se abrir diante dos olhos de um homem”, explicou. “Houve muita confiança entre nós. Ela confiou em mim e na [diretora de fotografia] Carolina [Steinbrecher] e isso foi importante para nos aproximarmos dela.”

De acordo com a diretora, um professor chegou a dizer que “uma equipe de garotas” não conseguiria realizar o projeto. Para Henrika, um dos maiores desafios do primeiro longa-metragem foi a desconfiança quanto ao seu trabalho, dado o baixo orçamento e a equipe reduzida. “Para muitas pessoas, não parecíamos profissionais. Mas não estou interessada em ser profissional: quero estar perto dos meus protagonistas e contar histórias”.

Ela, aliás, promete manter o mesmo estilo de filmagem em seu próximo filme, que espera rodar em agosto de 2019. Promete, também, seguir fazendo um cinema ligado à sua formação em sociologia – o novo trabalho, por exemplo, será resultado de anos de pesquisa em bordéis de Berlim. “Quando era socióloga achava as coisas interessantes na teoria, mas precisava chegar mais perto delas”, afirmou. “Queria contar de forma emocional as minhas experiências em diferentes ambientes sociais. Por isso decidi fazer cinema.”


Luísa Pécora é jornalista, criadora e editora do Mulher no Cinema

Foto do topo: Mario Miranda Filho/Agência Foto

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