Cinco produções francesas concorreram ao troféu de melhor filme na edição deste ano do Prêmio César, a versão local do Oscar. Nouvelle Vague, de Richard Linkater, era o campeão de indicações e tinha competido em Cannes, assim como A Irmã Mais Nova, de Hafsia Herzi, e Caso 137, de Dominik Moll. Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi, tinha levado a Palma de Ouro. Mas os votantes do César escolheram outro filme como o melhor do ano: O Apego, de Carine Tardieu, que estreia nesta quinta-feira (27) nos cinemas brasileiros.
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Ganhador de outros dois prêmios César —melhor atriz coadjuvante para Vimala Pons e melhor roteiro adaptado para Tardieu, Raphaële Moussafir e Agnès Feuvre—, O Apego é baseado no romance L’Intimité, publicado por Alice Ferney em 2020. Quando leu a obra, a cineasta gostou apenas de uma parte, e não se animou em fazer a adaptação para o cinema. Meses depois, recebeu a visita da atriz Fanny Ardant, que ao ver o livro disse que também já tinha lido, e que a história era perfeita para Tardieu.
Intrigada, a diretora releu o romance. E com a permissão da autora, centrou sua versão em Sandra, a personagem que tinha chamado sua atenção desde o início e que no filme é vivida por Valeria Bruni Tedeschi.
Sandra é uma mulher independente, que nunca teve interesse pelo casamento ou pela maternidade. Um dia, os vizinhos do apartamento ao lado pedem que ela tome conta de Elliott (César Botti), um menino de seis anos, enquanto vão ao hospital para o nascimento de sua irmãzinha, Lucille. Muito tempo depois, o pai, Alex (Pio Marmaï), retorna com uma notícia trágica: a mulher morreu durante o parto, e ele, agora, está sozinho com as duas crianças. A partir daí, Sandra começa a se aproximar cada vez mais da família.

O fato de o filme se chamar O Apego (ou L’attachement) e não A Intimidade, como é o título do livro, indica que o principal interesse da diretora é investigar como se desenvolvem os laços afetivos. De certa maneira, sua trajetória se conecta à de Sandra: Tardieu também não tinha especial interesse pela maternidade mas, depois dos 40 anos, adotou sozinha uma menina.
“Ao pegar minha filha nos braços pela primeira vez, compreendi que nosso encontro estava apenas começando”, disse a diretora, em entrevista ao Mulher no Cinema. “Embora meu sentimento de responsabilidade tenha sido imediato, o amor que sinto por ela hoje não era nada óbvio. Descobri que o apego é uma construção diária, que vai crescendo à medida que minha filha e eu aprendemos a nos conhecer.”
O Apego é o quinto longa de Tardieu depois de La tête de maman (2007), Feito Gente Grande (2012), Ôtez-moi d’un doute (2017) e Os Jovens Amantes (2020). O filme fez sua estreia mundial na mostra Horizonte do Festival de Veneza de 2025, e também integrou a programação do Festival de Cinema Francês do Brasil.
Leia as respostas de Carine Tardieu para as perguntas enviadas por e-mail pelo Mulher no Cinema:
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Atenção: a conversa revela algumas informações sobre a história do filme.
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Não li o livro no qual o filme é baseado, mas vi entrevistas nas quais você disse que sua adaptação se concentrou no que mais gostava: a personagem Sandra. O que te interessou nela?
Gostei da ideia de retratar uma mulher moderna, que não está submetida aos ditames do patriarcado, que reivindica sua independência e assume um celibato que nunca procura justificar —uma mulher relativamente livre, em suma—, mas que vê seus alicerces desmoronarem ao ser subitamente abalada pelo carinho que um menino e seu padrasto enlutados demonstram por ela. Gostei da ideia de que uma mulher que não tem nenhuma atração por crianças acabe se apegando, apesar de si mesma, não apenas a um homem, mas também —ou talvez sobretudo— ao filho dele.

O lançamento do filme A Odisseia reacendeu o debate sobre o que constitui uma boa adaptação cinematográfica de uma obra literária. Na sua opinião, quais elementos devem ser levados em conta ao se adaptar um livro para o cinema?
Os elementos que tocam e comovem na primeira leitura. É preciso encontrar a razão fundamental pela qual, de repente, parece impossível não se apegar a esse elementos, e nunca perdê-los de vista ao longo do processo de adaptação. Não se deve ter medo de se afastar de uma parte do romance para se apropriar dele. Nesse caso específico, como Alice Ferney é uma autora contemporânea, tive o cuidado de perguntar a ela se estaria disposta a me ceder os direitos de seu livro, com a condição de que eu pudesse fazer de Sandra minha personagem principal. E ela aceitou de bom grado.
Ao longo do filme, Sandra se transforma à medida que se apega ao menino e à sua família. No entanto, ela não muda radicalmente: continua solteira, independente e sem filhos. Ela não descobre, por exemplo, que desejava ser mãe. Gostaria que você nos falasse um pouco sobre a trajetória dessa personagem e por que era importante que ela continuasse sendo ela mesma.
Como muitas mulheres de 50 anos, cresci ouvindo contos que terminavam em casamento e muitos filhos. Depois, já adulta, fui pressionada pela sociedade a constituir uma família das mais “clássicas”. No entanto, meu caminho foi bem diferente, e com muita frequência fui obrigada a justificar essa situação fora do padrão. Ser mãe nunca tinha sido uma preocupação central para mim, mas aos 40 anos, talvez cansada de ter de me preocupar sempre e apenas comigo mesma, manifestei uma certa curiosidade pela maternidade. Ao longo do caminho, tornei-me mãe de uma menina que adotei, sozinha, em um país estrangeiro.
Ao pegar minha filha nos braços pela primeira vez, compreendi que nosso encontro estava apenas começando. Embora meu sentimento de responsabilidade tenha sido imediato, o amor que sinto por ela hoje não era nada óbvio. Descobri que o apego é uma construção diária, que vai crescendo à medida que minha filha e eu aprendemos a nos conhecer. É algo bastante comovente!
Sandra vai descobrir, mesmo contra a sua vontade, que é impossível lutar contra os laços afetivos quando eles se impõem a nós. No entanto, para mim era muito importante preservar nela uma certa forma de independência, permitir que ela permanecesse “livre” até o fim, para que seu apego a essa família não fosse algo sagrado.

Em entrevistas, você e Valeria mencionaram algumas “pequenas disputas” durante as filmagens. Entendi que não se tratavam de problemas graves, mas gostaria de saber mais sobre a colaboração de vocês. Em que consistiram essas “pequenas disputas”?
Valeria tem um jeito bastante extrovertido, é calorosa. E costumamos vê-la principalmente em personagens que também são assim. Mas Sandra era, ao contrário, uma mulher serena, contida e até mesmo distante. Uma mulher que mede suas palavras. No set, tive que refrear sua natureza para manter a coerência da personagem. Não foi sempre fácil, nem para ela nem para mim, especialmente porque sou uma diretora muito direta e fiel ao texto, enquanto a Valeria precisa de bastante liberdade para, eventualmente, se apropriar dos diálogos. Mas sua interpretação, tão orgânica, superou em muito as minhas expectativas.
Pessoalmente, tive uma relação complexa com o personagem de Alex: eu compreendia seu luto, mas suas ações me incomodavam bastante. Como você vê esse personagem?
Alex está dividido entre a perda da pessoa amada e o nascimento da filha, e depois pressionado pela separação de Elliott, a quem ama como um filho [no filme, o parentesco não é biológico]. Ele se agarra a tudo o que se assemelha ao amor para superar sua dor, mesmo correndo o risco de se iludir. Se ele se permite se apaixonar por Sandra, talvez seja porque, assim como Elliott, ele percebe que, no fundo, ela não está disponível. Depois, ele se apega à Emillia [personagem de Vimala Pons] por causa de um mal-entendido. No momento em que ela diz que ninguém costuma cuidar dela, desvia Alex de sua própria tristeza, como se varresse a poeira para debaixo do tapete. Por instinto de sobrevivência, Alex força seu retorno à alegria e à vida, comprometendo-se rápido demais e com muita intensidade a um futuro hipotético marcado pela paternidade e pelo casamento.

Este filme se passa principalmente dentro de dois apartamentos vizinhos, o de Sandra e o de Alex. Gostaria de saber mais sobre como foi criar e filmar naquele ambiente.
Nesta sociedade cada vez mais fragmentada, que ergue muros, me pareceu essencial contar uma história que derrube barreiras —no sentido literal, já que se trata de derrubar a parede que separa dois apartamentos. Quando Sandra fala a seu amante sobre seus vizinhos, diz que ouvir o barulho que fazem é uma forma de ter acesso à intimidade deles, ao mesmo tempo em que também se sente excluída. Mas, a partir do momento em que as portas se abrem, é um pouco como se Alex e Sandra morassem sob o mesmo teto. O título do livro, A Intimidade, traduzia muito bem essa ideia.
No entanto, ainda lhes resta uma antessala a atravessar. Esse lugar que também é de confidências, como uma terra de ninguém na qual se permite dizer o essencial por meio de uma porta entreaberta, uma troca de olhares ou um ato falho, como quando Alex derruba as compras de Sandra. Foi Christel Dewynter, a montadora do filme, quem encenou esse jogo de portas, muitas vezes musical, um pouco como um balé em que as portas tendem mais a se abrir do que a bater. E Thomas Gauder, o mixador do filme, traduziu a espessura das divisórias em som, e com muita delicadeza. Encontrar esses dois apartamentos contíguos foi um pouco como ter que encontrar um personagem do filme, e as locações não foram nada fáceis!
Vi entrevistas nas quais você disse que, quanto mais o tempo passa, mais você busca fazer filmes “simples”. O que é um filme simples para você? E por que deseja fazê-los?
Nenhum filme é realmente simples de realizar, pois dedicar-se às “pequenas coisas” exige tanto tempo e precisão quanto encenar grandes sequências cinematográficas! Mas digamos que tento fazer com que minha direção se esvazie cada vez mais em benefício dos personagens. Uma câmera discreta, sem floreios. Uso muito pouca tecnologia e tento garantir que, no set, o máximo de tempo seja dedicado aos atores, que a técnica nunca seja um obstáculo para eles. Um dos meus mestres nesse aspecto é Claude Sautet, cujo cinema era composto principalmente por planos e contraplanos, às vezes dinamizados pela chuva, por exemplo. Mas, se olharmos mais de perto, seu cinema é extremamente preciso, nenhum plano é deixado ao acaso. Portanto, a simplicidade é algo relativo. Talvez a palavra mais adequada seja discrição.
O filme termina com a canção “Você Abusou”, na voz de Maria Creuza. Por que a escolheu?
Foi uma ideia da [corroteirista] Raphaële Moussafir desde a fase de roteiro. Achei a música ao mesmo tempo alegre e melancólica, e combinava muito bem com a trilha sonora do filme, composta por Eric Slabiak. Quando parece leve, essa música se tinge de melancolia. Ou, ao contrário, quando parece infinitamente dramática ou até mesmo um lamento, sempre acaba cedendo a uma certa alegria. Essa dualidade revelou-se fundamental para que este filme, sobrecarregado desde os primeiros trinta minutos pelo anúncio da morte da mãe, nunca afundasse no abismo e sempre se inclinasse para o lado da vida. Foi só na sala de edição que percebi o quanto a letra de “Você Abusou” ecoava a trajetória percorrida por Sandra ao longo do filme. Essa mulher tão racional que, aos poucos, se deixa levar pelas emoções. Essa batalha interior entre o intelecto e o coração.
Luísa Pécora é jornalista e criadora do Mulher no Cinema
Foto do topo: Matt Winkelmeyer/Getty Images