Noémie Saglio fala sobre os desafios das mulheres no cinema francês

Nos últimos quatro anos, a francesa Noémie Saglio rodou três longas-metragens: Beijei Uma Garota (2015), Connasse, princesse des coeurs (2015) e Tal Mãe, Tal Filha (2017), que está na programação do Festival Varilux de Cinema Francês e entra em cartaz nos cinemas brasileiros no dia 20 de julho. Mas pergunte à Noemie qual a sua profissão e ela provavelmente responderá que é roteirista antes de dizer que é diretora.

“Ainda é meio estranho dizer que faço filmes. Você sempre tem uma sensação de ‘o que estou fazendo aqui?'”, explicou. “Principalmente sendo mulher, porque teve de lutar mais e porque os homens te dizem isso. Conheço diretores que dizem que não fazemos o mesmo trabalho. Digo que fazemos, sim, e eles respondem: ‘Não, você faz comédias de mulher.'”

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O cinema francês pode ser mais aberto às mulheres do que outras cinematografias, mas isso não significa que o cenário seja fácil. Um estudo recente do Centro Nacional do Cinema e da Imagem em Movimento (CNC), órgão público que regula a produção do país, mostrou que apenas 21% dos filmes lançados em 2015 foram dirigidos por mulheres. Outro dado é mais impressionante: as diretoras na França recebem, em média, 42,3% menos do que os homens na mesma profissão.

“O cinema francês talvez seja mais [igualitário] do que o americano, mas ainda ganho um salário menor, ainda tenho problemas para criar personagens como quero que elas sejam, e ainda sou chamada para fazer filmes ‘femininos'”, disse Noémie, que conversou com o Mulher no Cinema durante sua passagem por São Paulo para a abertura do Festival Varilux.

Ela veio ao Brasil acompanhada da atriz Camille Cottin, amiga e espécie de alter-ego que atuou em todos os seus longas. Em Tal Mãe, Tal Filha, Camille divide a cena com Juliette Binoche, interpretando mãe e filha inseparáveis, mas de personalidade oposta: Avril, a filha, é responsável, tem um emprego estável e sustenta a casa; Mado, a mãe, é despreocupada, divertida e não paga as próprias contas. A relação das duas entra em colapso quando Avril descobre estar grávida e Mado, também.

Na entrevista a seguir, Noémie fala sobre a parceria com Camille, comenta a decisão de escalar Juliette Binoche para um raro papel cômico e revela alguns dos desafios das mulheres no cinema francês.

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Como o projeto começou e por que você quis contar essa história?
Sempre faço filmes sobre mulheres e queria abordar a maternidade, o que significa ser mãe e o relacionamento entre mãe e filha. Então pensei: “O que é mais louco do que se tornar mãe ao mesmo tempo que a sua própria mãe?”

Seu filme me lembrou Toni Erdmann, de Maren Ade, pelo modo como propõe uma inversão de papéis entre pais e filhos. É uma questão geracional? Os adultos de 30 e poucos anos de hoje são mais preocupados do que os pais?
Acho que sim. Não sei como é em outros países, mas na França crescemos com bastante medo. Todos nos diziam que não íamos encontrar trabalho, que íamos ter aids, que íamos morrer em um ataque terrorista, que não íamos conseguir ganhar dinheiro, que tínhamos de estudar muito. Tínhamos muita responsabilidade desde muito jovens, e é interessante notar que não somos tão livres como nossos pais. Fomos a geração do “tudo vai ser horrível para vocês”.

Nesse sentido, há algo de autobiográfico no filme?
O filme tem muito de mim, mas não é autobiográfico. Minha mãe não é [como a do filme] e meu pai é um pouco, mas não tanto. Acho que estou presente no modo de ser dos personagens e no misto de emoção e comédia. Os relacionamentos do filme são profundos e intensos, mas você dá risada. Eu sou bem assim.

Este é seu terceiro filme com a atriz Camille Cottin. Por que você gosta tanto de trabalhar com ela?
Ela representa exatamente quem sou. Se escrevo um filme e um dos personagens é inspirado em mim, ela vira meu alter-ego. Camille é minha melhor amiga e passamos muito tempo juntas. Nos entendemos com um olhar, e é incrível trabalhar assim. Se estamos filmando e peço que acrescente isso, ou tire aquilo, ela faz perfeitamente. Ela entende tudo o que digo.

Camille Cottin e Juliette Binoche em cena de "Tal Mãe, Tal Filha"
Camille Cottin e Juliette Binoche em cena de “Tal Mãe, Tal Filha”

E como você escolheu Juliette Binoche? É bastante raro vê-la atuando em comédias.
Ela nunca faz comédias, e [escalar o papel da mãe] foi difícil. A Juliette parece muito jovem no filme, e algumas pessoas não conseguiram se identificar com um relacionamento em que a mãe e a filha são tão próximas em idade [Juliette tem 53 anos e Camille, 38]. Brinco com isso o tempo todo no roteiro, mas não funcionou para algumas pessoas. Não queria escalar uma atriz de 40 anos porque acho importante que as de 50 anos ainda possam interpretar uma personagem sexy, uma mulher, e não apenas a avó. Então queria uma mulher sexy de mais de 50 anos. Mas também teria de ser plausível que ela ficasse grávida. Acho que foi ousado convidar Juliette. Liguei para o agente dela, que foi o meu primeiro agente, e perguntei se ela um dia teria interesse em fazer comédia. Ele disse que sim, o que foi uma loucura, pois ela é meu ídolo. Acho que era para ser. Juliette é muito engraçada, ri o tempo todo, é uma pessoa bastante solar. Fiquei feliz em poder mostrar isso.

O principal debate deste ano em Cannes foi sobre plataformas de streaming como a Netflix, e se um filme que não estreou nos cinemas da França deve concorrer no festival. Qual a sua opinião sobre esse tema?
Estou completamente do lado da Netflix. Em primeiro lugar, a Netflix é menos machista no modo como trata as mulheres. As personagens femininas são inteligentes, variadas. Eles são muito abertos e nós precisamos deste tipo de mídia. No cinema, especialmente o francês, todo mundo se olha no espelho e faz filmes para si mesmo. [O pensamento é:] “Faço este filme, ele passa em Cannes, ninguém mais vai assistí-lo, mas tudo bem”. Às vezes são filmes importantes, e ninguém assiste. Filmes sobre o subúrbio, imigração…A Netflix mostra esses filmes. E mostra mulheres com as quais você pode se relacionar. Acho importante mostrar às meninas personagens que não sejam só mães e esposas. Exibimos Connasse [filme dirigido por Noémie e Eloise Lange] no Rio de Janeiro e as meninas ficaram tão felizes! A personagem diz o que vem à cabeça e é uma pessoa horrível, mas você se identifica porque já pensou aquelas coisas também. Tantas mulheres me disseram que a personagem era horrível, mas elas a amavam, porque a fizeram falar o que pensavam para o chefe ou para o marido.

Há sempre uma pressão muito grande para que as personagens femininas sejam simpáticas aos olhos do público, o que não acontece com os personagens masculinos.
Exatamente. Quando escrevo uma personagem feminina que não é simpática no começo, que tem um caminho a percorrer até a plateia gostar dela, todo mundo diz que não vai dar certo. Mas quantos personagens masculinos assim você já viu? No caso de Connasse, ninguém queria fazer o filme, todo mundo dizia que a personagem não ia funcionar. E mesmo com o sucesso que foi, ainda é difícil [criar personagens semelhantes]. Mesmo a personagem da Juliette [em Tal Mãe, Tal Filha], muita gente estava preocupada porque ela não seria simpática o suficiente. Sendo que para mim ela é adorável.

Mas por que achavam isso? É a ideia de que uma mãe não pode se comportar daquela forma?
Sim. E porque ela tem 50 anos e faz sexo. Agora estou fazendo um outro filme e a mesma coisa está acontecendo. É um processo muito devagar, mas vamos chegar lá. Acho que [o cinema francês] talvez seja mais [igualitário] do que o americano, mas ainda ganho um salário menor, ainda tenho problemas para escrever os personagens do jeito que quero que eles sejam, e ainda sou chamada para fazer filmes tidos como “femininos”. “Temos um filme sobre bebês, você quer fazer?” Mas e um filme de carro? Nunca me chamam para dirigir comercial de carro. Quero fazer a porra de um comercial de carro! [risos] Deve ser muito divertido. Mas não, eles me dizem: “Você vai dirigir o comercial de papinha de neném.”

Noémie Saglio e Camille Cottin na abertura do Festival Varilux no Rio de Janeiro
Noémie Saglio e Camille Cottin na abertura do Festival Varilux no Rio de Janeiro

Vi uma entrevista de 2015 na qual você dizia que se considerava roteirista em primeiro lugar, e que se dizer “diretora” era um pouco estranho. Isso ainda é verdade?
É engraçado porque estou sempre escrevendo, mas também estou sempre dirigindo: rodei três filmes nos últimos quatro anos. Mas é, não sei o motivo…ainda é meio estranho dizer que faço filmes. Você sempre tem uma certa sensação de “o que estou fazendo aqui?”. Principalmente sendo mulher, porque teve de lutar mais e porque os homens te dizem isso. Conheço diretores que dizem que não fazemos o mesmo trabalho. Digo que fazemos, sim, e eles respondem: “Não, você faz comédias de mulher”. E eu insisto: “Mas mesmo assim, temos atores, temos um roteiro e fazemos filmes!”. É…acho que isso nos faz ficar um pouco nervosas em nos assumirmos como diretoras.

Então que conselho você daria para as mulheres que querem ser diretoras?
Que se mantenham verdadeiras e não tentem agradar todo mundo. Toda vez que cedi, me arrependi. Toda vez que digo “tudo bem, vou aceitar, vou deixar a personagem um pouco mais boazinha”, me arrependo quando vejo o filme. Criem o máximo possível de personagens femininas, que se pareçam com a sua irmã, com a sua amiga. Vamos mostrar que somos múltiplas. E para ser bem-sucedida…é preciso trabalhar muito. Acho que as coisas vão melhorando, mas a estrada é longa. E escrever [seus próprios filmes] é um bom modo de dar o primeiro passo. Faça pequenos projetos o tempo todo, chame suas amigas, mesmo que seja para um vídeo de casamento. Apenas filme. É tão fácil filmar hoje – fizemos Connaise basicamente com GoPros e quero filmar com iPhone para poder me livrar das pessoas que dão o dinheiro. Não espere que outros digam sim, apenas faça. Temos todas as ferramentas agora e tenho certeza de que se o conteúdo for bom, vai ser visto.

Veja o trailer de Tal Mãe, Tal Filha:

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