Crítica: “Uma Dobra no Tempo”, de Ava DuVernay

Uma Dobra no Tempo chega aos cinemas nesta quinta-feira (29) como o lançamento mais importante do ano no que diz respeito à participação e representação feminina em Hollywood. Trata-se, afinal, de um blockbuster de ficção científica produzido pela Disney com mulheres em frente e por trás das câmeras, que entrou para a história como o primeiro longa-metragem com orçamento de US$ 100 milhões a ser dirigido por uma mulher negra.

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A diretora, no caso, é Ava DuVernay, conhecida por Selma: Uma Luta Pela Igualdade (2014) e A 13ª Emenda (2016), e que agora leva às telas uma adaptação do livro escrito pela americana Madeleine L’Engle (1918-2007) e publicado pela primeira vez em 1962. Bastante popular nos Estados Unidos, a obra narra a busca de Meg Murry pelo pai, um cientista que desapareceu misteriosamente enquanto investigava o tesserato, uma forma de viajar bilhões de anos-luz em poucos segundos não muito bem explicada pelo filme (ainda não li o livro, traduzido e lançado no Brasil pela Harper Collins).

A ação começa quatro anos depois do desaparecimento do Sr. Murry (Chris Pine), quando Meg (Storm Reid) está no início da adolescência. Antes uma aluna brilhante, ela agora decepciona os professores, é alvo de bullying e se relaciona basicamente com a mãe (Gugu Mbatha-Raw), também cientista, e o irmão mais novo, o prodígio Charles Wallace (Deric McCabe).

Mindy Kaling, Oprah Winfrey e Reese Witherspoon em cena de “Uma Dobra no Tempo”

É o caçula quem media o encontro de Meg com três criaturas mágicas que querem ajudá-la na busca pelo pai: a Sra. Quequeé (Reese Witherspoon), a Sra. Quem (Mindy Kaling) e a Sra. Qual (Oprah Winfrey), de longe a mais sábia e poderosa. Usando o ato de tesserar, este trio vindo de alguma parte do universo levará Charles Wallace, Meg e um colega de escola, Calvin (Levi Miller), em uma viagem por diferentes planetas, sempre seguindo os passos do Sr. Murry.

A maior parte da jornada, e portanto do filme, é marcada por um visual que tem tudo para agradar às crianças: paisagens ultracoloridas, criaturas imaginárias e muitos efeitos visuais, sem contar a caracterização das três “senhoras”, que usam penteados, maquiagem e figurinos cheios de detalhe e bastante criativos. Quando Meg, Calvin e Charles Wallace chegam ao planeta conhecido como Camazotz, as múltiplas cores aos poucos dão lugar à escuridão, e o espírito de leveza e aventura sai de cena. É ali que mora o chamado Aquele, essência maligna que penetra nos humanos e causa os problemas do universo.

É também em Camazotz que o filme perde o rumo. Sem conseguir definir esta força antagonista de forma clara e instigante, ou responder a algumas das perguntas levantadas pela trama, o roteiro de Jennifer Lee e Jeff Stockwell reduz o que deveria ser o clímax a sequências arrastadas e desinteressantes. A protagonista Storm Reid é talentosa e interpreta Meg com naturalidade, mas a mudança de tom do terço final pesa sobre o restante do elenco infantil, especialmente McCabe, já que a trama exige de Charles Wallace muito mais do que ele consegue oferecer. Segue-se então para um final que, para além do previsível, é bem mais sentimental do que emocionante.

Ava DuVernay e Storm Reid durante as filmagens de “Uma Dobra no Tempo”

Em um vídeo exibido antes da sessão (ao menos a da imprensa), DuVernay afirma que o filme é “uma carta de amor para crianças” e pede que o espectador tente ver Uma Dobra no Tempo com os olhos do público-alvo, que tem de 8 a 12 anos. De fato, é bem possível que as falhas saltem mais aos olhos dos adultos, sobretudo a forma sem sutilezas com a qual o filme busca passar mensagens sobre a importância do amor próprio, de aceitar quem você é e de fazer o bem. A carta de DuVernay às crianças é de amor, mas também de empoderamento: como a personagem de Winfrey, ela parece estar “em busca de guerreiros que possam trazer a esperança de volta”.

Tal frase soa especialmente atual em tempos de #NeverAgain e depois do último fim de semana, quando jovens lideraram multidões em marchas pelo controle de armas nos Estados Unidos. Nos melhores momentos de Uma Dobra no Tempo, ver Storm Reid na tela me fez lembrar de Naomi Wadler, a garota de 11 anos que fez um dos discursos mais impactantes da manifestação de Washington, dizendo estar ali para representar as meninas negras que são vítimas de violência armada, mas tornam-se meras estatísticas sem que suas histórias sejam contadas.

Com Meg, DuVernay buscou fazer basicamente o mesmo: representar as meninas negras cujas histórias não são contadas, as garotas da plateia que têm tão poucas oportunidades de se ver na tela do cinema. A mensagem de Uma Dobra no Tempo ecoa menos nos diálogos criados sob medida para inspirar e mais na revigorante escolha do elenco, que inclui negros, brancos, descendentes de indianos e de latino-americanos, além de um casal interracial e crianças mestiças – sem que tal diversidade seja explicitamente mencionada ou represente algum tipo de conflito. Talvez seja o olhar adulto, mas tendo a acreditar que um elenco tão inclusivo já teria (e terá), por si só, forte impacto no espectador de qualquer idade.

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Este filme passa no teste de Bechdel-Wallace. Clique para saber mais.“Uma Dobra no Tempo”
[A Wrinkle in Time, EUA, 2018]
Direção: Ava DuVernay
Elenco: Storm Reid, Oprah Winfrey, Reese Witherspoon.
Duração: 109 minutos


Luísa Pécora é jornalista, criadora e editora do Mulher no Cinema.

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