Apesar de “Barbie”, estudos mostram cenário estagnado para diretoras em Hollywood

Greta Gerwig com os atores Ryan Gosling e Margot Robbie no set de "Barbie" - Foto: Divulgação

O estrondoso sucesso de Barbie pode dar a impressão de que as coisas estão mudando significativamente no que diz respeito à contratação de diretoras pelos grandes estúdios americanos. No entanto, não é isso o que mostram os dois principais estudos sobre igualdade de gênero em Hollywood: na verdade, a participação das mulheres por trás das câmeras continuou bastante reduzida em 2023.

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De acordo com a pesquisa Celluloid Ceiling, realizada pelo Centro de Estudos sobre as Mulheres na Televisão e no Cinema da Universidade Estadual de San Diego, mulheres representaram 16% dos diretores dos 250 filmes de maior bilheteria nos Estados Unidos em 2023. É uma queda em relação a 2022, quando o índice foi de 18%.

“Apesar de Barbie ter reinado nas bilheterias, as mulheres continuaram dramaticamente subrepresentadas como diretoras”, escreveu Martha P. Lauzen, coordenadora do estudo. “É ilusão [pensar que] o merecido triunfo de Greta Gerwig desmente a desigualdade de gênero que permeia a indústria cinematográfica.”

Nos 250 filmes analisados, mulheres representaram 26% dos produtores, 24% dos produtores executivos, 21% dos montadores, 17% dos roteiristas, 14% dos compositores e 7% dos diretores de fotografia. Todas as porcentagens são menores do que as de 2022, exceto as de montadoras e diretoras de fotografia, que não se alteraram, e a de compositoras, que subiu seis pontos percentuais e é a mais alta já registrada pelo estudo.

A pesquisa Celluloid Ceiling é realizada anualmente desde 1998. Na comparação entre 1998 e 2023, o índice de mulheres cresceu 7 pontos percentuais entre diretores, 6 pontos entre produtores executivos, 4 pontos entre roteiristas, 3 pontos entre diretores de fotografia, 2 pontos entre produtores e 1 ponto entre montadores. Na época, o estudo ainda não coletava dados sobre compositores.

O relatório apontou, ainda, que 72% dos filmes empregou de 0 a 4 mulheres nas funções avaliadas. Em comparação, 75% dos filmes empregou 10 homens ou mais nestas mesmas posições.

E como em anos anteriores, o Celluloid Ceiling mostrou que diretoras costumam empregar mais mulheres. Considerando apenas os longas com direção ou codireção feminina, mulheres representaram 61% dos roteiristas, 35% dos montadores, 10% dos diretores de fotografia e 26% dos compositores. Entre os filmes dirigidos exclusivamente por homens, todos estes índices caem: mulheres são 9% dos roteiristas, 18% dos montadores, 7% dos diretores de fotografia e 11% dos compositores.

A diretora Nia DaCosta no set de “As Marvels” – Foto: Laura Radford/Marvel Studios

Cenário similar foi traçado pelo estudo Inclusion in the Director’s Chair, realizado pelo Annenberg Inclusion Initiative, um think thank ligado à Universidade do Sul da Califórnia. Coordenada por Stacy L. Smith e Katherine Piper, a pesquisa analisa anualmente os 100 filmes de maior bilheteria nos Estados Unidos. Em 2023, apenas 14 dos 116 diretores que realizaram estes filmes eram mulheres, o equivalente a 12,1%.

Em 2022, o índice ficara em 9%, o que representa um aumento de 3,1 pontos percentuais. De acordo com o estudo, só é considerado avanço significativo o crescimento de cinco ou mais pontos.

As 14 mulheres que tiveram filmes no top 100 foram Greta Gerwig (Barbie), Emma Tammi (Five Nights at Freddy’s – O Pesadelo Sem Fim), Nia DaCosta (As Marvels), Elizabeth Banks (O Urso do Pó Branco), Fawn Veerasunthorn (Wish: O Poder dos Desejos), Nia Vardalos (Casamento Grego 3), Sofia Coppola (Priscilla), Kelly Fremon Craig (Crescendo Juntas), Faryn Pearl (Ruby Marinho, Monstro Adolescente), Adele Lim (Loucas em Apuros), Laura Terruso (Meu Pai É um Perigo), Emma Seligman (Clube da Luta Para Garotas), Emerald Fennell (Saltburn) e Celine Song (Vidas Passadas).

Entre os diretores dos 100 filmes analisados haviam apenas 26 pessoas não brancas (o equivalente a 22,4%), incluindo quatro mulheres (ou 3,4%). Ambas as porcentagens são apenas ligeiramente maiores do que as registradas em 2022 (20,7% e 2,7%, respectivamente).

De acordo com o estudo, não houve progresso significativo nesses dados desde 2016, quando a porcentagem de pessoas negras entre os diretores do top 100 ficou em 13,3%. “As promessas de apoio à inclusão feitas após o assassinato de George Floyd e o movimento #StopAsianHate foram atos performáticos da indústria do entretenimento, e não passos reais para fomentar mudança”, escreveram as pesquisadoras.

Assim como Lauzen, Smith e Pieper disseram que sua pesquisa oferece um constraste “àqueles que estão celebrando o início da mudança em Hollywood” por causa do sucesso de Barbie. “Um filme ou uma diretora não são suficientes para criar a mudança radical que ainda é necessária por trás das câmeras”, afirmaram. “Até que os estúdios, executivos e produtores mudem sua forma de decidir quem está qualificado e disponível para dirigir filmes de grande bilheteria, há pouca razão para otimismo.”

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