“TikToker com orgulho”, Mariana Rosa cria oportunidades para si mesma nas redes

Um pé na bunda na pandemia foi o catalisador para Mariana Rosa, 34 anos, descobrir que sua paixão por contar histórias ia além do trabalho como atriz. Confinada em casa e com trabalhos suspensos ou cancelados, ela escreveu um texto sobre a dor de amor, gostou do resultado, gravou um vídeo e publicou no Instagram. A ideia, segundo ela, era experimentar. “Não estava pensando em acertar nem em ser produtora de conteúdo”, afirmou, em entrevista ao Mulher no Cinema. “Na verdade, foi como se o Instagram virasse minha sala de ensaio.”

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Quase dois anos depois, a sala de ensaio de Mariana é frequentada por mais de 10 mil seguidores no Instagram e mais de 91 mil no TikTok. A atriz faz tudo pelo celular e assume todas as demais funções: roteiro, direção, maquiagem, figurino, filmagem e edição. E como muitas outras atrizes, ela descobriu que passar para o outro lado da câmera é uma forma de assegurar papéis mais interessantes para si mesma. “Antes, para um trabalho acontecer eu dependia de alguém me convidar ou de alguém me aprovar num teste. Sentia uma certa impotência nesse mundo no qual o seu perfil às vezes é mais importante do que o seu potencial”, afirmou Mariana, que tem planos de rodar um curta-metragem. “Me descobri roteirista, assim como descobri o prazer de me dirigir e de dirigir outros atores. E estou apaixonada pela edição.”

Mariana começou seu projeto no Instagram – primeiro fazendo vídeos mais longos, no formato IGTV, e depois passando para os conteúdos bem mais breves do Reels. Por sugestão de uma amiga, venceu o preconceito que tinha com o TikTok e entrou também para a rede social que mais cresce no mundo. “Descobri que o TikTok tem uma comunidade incrível. As pessoas não têm receio de te seguir, de curtir, de debater. Elas consomem o conteúdo de forma mais voraz e há mais retorno.”

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Publicados em ambas as redes, os vídeos de Mariana podem ser poéticos e abordar temas sérios, ou serem esquetes cômicas, como a série que mostra a conversa da dona de uma empresa com sua funcionária: enquanto a chefa fala sobre um novo produto ou ação de marketing, a outra tenta em vão explicar como a ideia é enganosa e prejudicial ao consumidor. Um de seus vídeos, intitulado “Uma Contradição”, recebeu menção honrosa no Festival Brasileiro de Nanometragem, dedicado a filmes de até 45 segundos, e foi uma de cinco obras escolhidas para representar o país no Festival Internacional de Contis, na França.

Embora viabilizar o projeto comercialmente ainda seja um desafio (ela tem uma campanha de financiamento recorrente, na qual oferece conteúdo exclusivo aos apoiadores), Mariana já sente que colhe os frutos deste novo espaço de experimentação e expressão criativa. “Sempre questionei muito minhas próprias ideias, ficava pensando se eram boas ou não. Mas ao começar a postar, parei de sentir o peso de ter de ser aprovada pelos outros”, contou a atriz. “Não tenho nenhuma preocupação em relação a alguém me olhar torto ou me achar menos artista porque posto no TikTok. Sinto que o que tenho para falar, as pessoas estão ouvindo.”

Leia os principais trechos da entrevista de Mariana Rosa ao Mulher no Cinema:

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O que te levou a começar a criar vídeos para o Instagram e o TikTok?

Me formei como atriz e sempre afirmei que meu ofício era ser atriz. Dizia que não era capaz de escrever, que precisava de um texto pronto para poder trabalhar. Quando veio a pandemia, tomei um baita pé na bunda e meio que pari um texto sobre a dor de amor que estava sentindo. Gostei do resultado e decidi gravar um vídeo, no intuito de experimentar mesmo. Não comecei a fazer os vídeos pensando em acertar ou em ser produtora de conteúdo. Na verdade, foi como se o Instagram virasse minha sala de ensaio. Comecei a experimentar e a postar, sem pretensão e sem medo de ser julgada. E aí foi como se uma porta se abrisse: entrei num fluxo criativo e começaram a vir ideias e textos sobre várias coisas. Primeiro fiz vídeos mais longos, depois experimentei o formato de Reels. Na época tinha um pouco de preconceito com o Tik Tok, achava que era coisa de jovenzitos e de dancinha. Mas quando comecei a postar, descobri uma comunidade incrível. As pessoas não têm receio de te seguir, de curtir o vídeo, de debater o tema. No Instagram sinto um receio maior, como se as pessoas estivessem fazendo um grande favor de interagir com o seu conteúdo. O TikTok é mais voraz e dá mais retorno.

Como é o processo de criação dos vídeos?

Não tenho um processo claro. Às vezes parto de uma ideia para um texto, às vezes de um acessório que tenho vontade de usar em cena ou da vontade de experimentar algum tipo de estética ou de vídeo que me interessa. Posso juntar um texto que já tinha escrito com a estética que quero experimentar ou com alguma ideia que tinha anotado. Vou juntando as coisas e criando meu acervo de vídeos. Assumo todas as funções: roteiro, direção, filmagem, maquiagem, figurino, edição. E faço absolutamente tudo pelo celular: escrevo, gravo, edito, tudo.

@rosamarirosa

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E como tem sido a experiência?

Tem sido incrível. Sempre questionei muito minhas próprias ideias, ficava pensando se eram boas ou não. Mas ao começar a experimentar e a postar, parei de sentir o peso de ter de ser aprovada pelos outros. Alguém gostar ou não gostar muito [de um vídeo] não interfere na minha autocrítica. Não estou preocupada em errar. Alguns tipos de vídeo viralizam mais do que outros – os mais poéticos e densos, por exemplo, têm bem menos engajamento. Mas isso não é problema, porque fazê-los é prazeroso. Além disso, recebo muitas mensagens privadas de pessoas que não conheço dizendo que adoram o conteúdo. Fiz vídeos sobre temas como abuso, feminicídio, depressão e as pessoas me procuraram para dizer que aquilo as impactou, as fez refletir. Tem sido mágico perceber como a minha expressão artística, que é algo tão pessoal, pode transformar alguém. Essa é a maior força da arte. Sinto que o que tenho para falar, as pessoas estão ouvindo. Isso me estimula a continuar e a experimentar mais. Pretendo, inclusive, dar um passo maior e escrever e produzir um curta-metragem.

Você sente que outros artistas, principalmente outros atores e atrizes, “respeitam” formatos como Reels e TikTok ou existe certo preconceito ou a ideia de que é um trabalho menor?

Sinto que o vídeo mais longo às vezes recebe um tratamento diferente de um vídeo do Reels ou do TikTok, que é visto como muito curto, bobagem. Não é um preconceito que eu sinta muito, mas acho que ainda estamos criando uma cultura sobre vídeos na vertical. Eu mesma costumava julgar esses vídeos como rasos e superficiais, a não ser que fossem sobre receitas ou dicas de viagem. Agora já vi webséries e outros conteúdos de dramaturgia [nesse formato]. Então acho que ainda existe certa resistência, mas ela está diminuindo. Eu sou tiktoker com orgulho: não tenho nenhuma preocupação em relação a alguém me olhar torto ou me achar menos artista porque posto no TikTok. É algo que talvez me abalasse no passado, mas que hoje me abalaria zero. Sinto na prática o quão libertador é não se preocupar com o que outras pessoas estão falando e achando.

Muitas atrizes começam a trabalhar por trás das câmeras – seja no roteiro, na direção ou na produção – para criar suas próprias oportunidades e ter papéis mais interessantes. Você tem sentido um pouco isso fazendo esse trabalho?

Completamente. Me descobri roteirista, assim como descobri o prazer de me dirigir e de dirigir outros atores que chamo para fazer cenas comigo. E estou apaixonada pela edição: enquanto estou editando, ainda estou tendo ideias. Acho que a grande motivação de produzir meu próprio conteúdo é criar as oportunidades que os outros não me dão. Antes, para qualquer trabalho acontecer eu dependia de alguém me convidar ou de alguém me aprovar num teste. Sentia uma certa impotência em um mundo no qual o seu perfil às vezes é mais importante do que o seu potencial. Me inspirei muito na Phoebe Waller-Bridge, criadora de Fleabag, e também em pessoas como o Paulo Gustavo, por exemplo. São pessoas que foram lá e fizeram: abriram um mercado a partir da produção que eles mesmos criaram. Acho que empreendi por necessidade, para continuar trabalhando e não ficar esperando passivamente por uma oportunidade.

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É possível viabilizar esse tipo de trabalho financeiramente? De que forma?

Isso ainda é um grande desafio, algo que me faz quebrar a cabeça. Não acho que exista receita de bolo, já que a internet oferece vários caminhos. Mas ainda não sei qual é o meu, então por enquanto continuo produzindo meu conteúdo e tentando entender melhor como viabilizá-lo financeiramente. No meu caso, acho que preciso crescer, que me faltam números para poder vender um projeto ou apresentar uma ideia. As pessoas que têm muitos seguidores são procuradas pelas marcas, mas isso ainda está um pouco distante para mim. Estou investindo meu tempo e minha dedicação na criação do meu conteúdo, para depois oferecer [aos outros] vídeos, trabalhos como roteirista, projetos, ideias que eu tenha. É um mistério, vou descobrir fazendo.

Que conselho você daria às mulheres que querem criar conteúdo em vídeo nas redes sociais?

Acho que diria para essas mulheres negociarem com as sabotadoras que existem dentro delas. É difícil querer vencer a sabotadora, porque todo dia ela volta. Então tem que negociar e dizer: “Olha, hoje vou me dedicar durante 15 minutos a mim, ao que acredito, ao que gosto, ao que quero falar.” Por 15 minutos, por 30 minutos, todo dia um pouquinho só. Aí vamos conquistando esse espaço dentro de nós que tem tanto medo do julgamento, tanta preocupação com o que os amigos e as pessoas mais próximas da gente e do nosso trabalho vão pensar. A grande verdade é que desconhecidos vão trocar mais impressões com vocês do que aquelas pessoas de quem vocês mais esperam. Então vamos tirar a expectativa de sermos queridas e amadas pelas pessoas próximas e ter esse diálogo com a sabotadora que mora dentro da gente, e que vai deixando as coisas para depois e colocando as preocupações e culpas femininas à frente do nosso lado comunicativo.


Luísa Pécora é jornalista e criadora do Mulher no Cinema

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