Em cartaz nos cinemas brasileiros, Zafari representa tanto uma ruptura quanto uma continuidade na obra da diretora venezuelana Mariana Rondón. De um lado, ela se lança pela primeira vez no cinema de gênero, utilizando elementos do terror e do suspense para retratar o colapso de uma sociedade. De outro, adota a abordagem que marca sua filmografia: retratar a crise de um país a partir da intimidade de uma família, e mostrar como a violência e a polarização política se inserem, aos poucos, na vida cotidiana de todos nós.
Tal abordagem, segundo a diretora, vem do desejo de não querer “nomear o poder”. “Não quero dar a nenhum poder a possibilidade de ter protagonismo”, afirmou Rondón, em entrevista ao Mulher no Cinema. “Mas me importo muito com o modo como o poder nos afeta. Como ele pode nos destruir, nos despedaçar, nos ferir.”
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De fato, nenhum líder ou partido político é nomeado em Zafari, definido como “fábula distópica” pela cineasta. Escrita por ela em parceria com a peruana Marité Ugas, sua sócia na Sudaca Filmes, a trama também evita marcadores de época e lugar para permitir uma leitura universal. Mas em se tratando de Rondón, uma diretora conhecida por abordar os problemas da Venezuela dentro e fora das telas, o filme também nos remete constantemente à situação de seu próprio país.
A inspiração venezuelana, aliás, já se revela no título. No final de 2014, o hipopótamo Safari foi encontrado morto em um zoológico de Caracas, e cortado em pedaços antes de ser retirado do local. A notícia de que o animal teria engolido bolas de borracha veio acompanhada de denúncias de negligência e desnutrição, num momento em que a Venezuela já sofria os efeitos da crise política e econômica que levou quase oito milhões de pessoas a deixar o país na última década.

Rondón e Ugas se puseram a escrever o roteiro de Zafari logo que souberam da morte do animal. “Começamos a imaginar como uma sociedade, um país, um mundo —como se chega ao ponto em que uma coisa assim acontece”, afirmou a diretora. “Era quase como um drama policial: como um hipopótamo é assassinado e cortado em pedaços? O que pode estar passando na cabeça dessa sociedade?”.
No entanto, o momento não era propício para a realização do projeto. Depois de estrear na direção de longas com Postais de Leningrado (2007), Rondón ganhou reconhecimento internacional com Pelo Malo (2013), vencedor do principal prêmio do Festival de San Sebastián, na Espanha. De início, o sucesso foi celebrado na Venezuela, mas o clima mudou quando a diretora criticou a intolerância e a polarização da sociedade de seu país em uma entrevista ao jornal espanhol El País.
Tal crítica já estava no próprio filme, que parte da história de um garoto pobre que sonha em alisar o cabelo para tratar de temas como identidade, racismo, machismo e homofobia. Mas a entrevista —cujo título dizia: “Chávez nos sentenciou à guerra”— fez com que a controvérsia chegasse antes da obra à Venezuela. Na época, o sistema estatal de comunicação acusou a diretora de “desconhecer a gestão do governo” que tinha ajudado a financiar seu trabalho.
Rondón tentou esfriar a polêmica, mas acabou se mudando para o Peru, onde vive até hoje. Apesar de ter seguido escrevendo e produzindo filmes, só voltou à direção cerca de dez anos depois, quando Zafari saiu do papel graças a uma coprodução entre Peru, Venezuela, Brasil, México, Chile, República Dominicana e França.

A trama começa com a chegada do hipopótamo Zafari a um zoológico ao lado de um grande edifício com piscina. Por trás do aparente luxo está uma classe média decadente: a maior parte dos moradores deixou o prédio e o país, e quem ficou tenta fazer o mesmo, enquanto sofre com a falta de comida, água e energia.
É o caso de Ana (Daniela Ramírez), que percorre os apartamentos abandonados em busca de itens básicos e de qualquer coisa que possa alimentar sua família. Seu marido, Edgar (Francisco Denis), pouco faz além de observar o hipopótamo e também os Romero, uma família mais pobre que está encarregada de cuidar do animal e que reivindica, com sucesso, o uso da piscina do prédio.
Ana é a personagem a quem o filme acompanha e melhor desenvolve. De forma geral, a oposição entre as duas famílias serve principalmente como ferramenta para a diretora argumentar que diferenças vistas como rígidas se apagam em tempos de barbárie. Ou, para usar suas palavras, que “todos são vítimas do poder”.
Leia os principais trechos da entrevista com Mariana Rondón:
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Zafari é inspirado, em parte, na morte de um hipopótamo que ocorreu em um zoológico de Caracas há doze anos. A ideia de fazer o longa surgiu já naquela época? Como a história real se transformou em porta de entrada para a história do filme?
Começamos a escrever o roteiro imediatamente depois de ler a notícia, imaginando como uma sociedade, um país, um mundo —como se chega ao ponto em que uma coisa dessa acontece. Era quase como um drama policial: como um hipopótamo é assassinado e cortado em pedaços? O que pode estar passando pela cabeça dessa sociedade? No entanto, bem naquele ano tive problemas na Venezuela por causa do meu longa anterior, Pelo Malo. A situação estava terrível, então fomos [ela e a sócia, Marité Ugas] fazer um filme no Peru. Eu pensava que ia voltar em breve para a Venezuela para rodar esse roteiro [o de Zafari], mas a situação ficava cada vez pior. Era muito difícil voltar, que dirá fazer um filme, já que não havia mais apoio para a produção cinematográfica e o trabalho criativo. Ou havia apenas para projetos muito específicos, que tinham “aprovação ideológica”. Então segui guardando meu projeto. Não tinha onde realizá-lo, não tinha um país para filmar, então continuei pensando e trabalhando nele. Até que, anos depois, tive a oportunidade de apresentá-lo no mercado de coproduções do Festival de San Sebastián. Lá, muitos produtores se interessaram, incluindo o [brasileiro] Rafael Sampaio, da Klaxon. Aí o projeto renasceu em mim, e renasceu também a possibilidade de realizá-lo. É por isso que se trata de uma coprodução tão grande: na falta de um país, precisei de sete.
É interessante que este projeto, que ficou tanto tempo na sua cabeça, esteja chegando aos cinemas brasileiros no contexto dos ataques dos Estados Unidos e de tudo o que está acontecendo na Venezuela. Entendo que Zafari não se refere apenas à Venezuela: é uma história que poderia se passar no Brasil ou em outros países da América Latina e do mundo, incluindo os Estados Unidos. Mas como você vê esse momento da estreia? O contexto afeta o filme de alguma forma, ou lhe acrescenta novos significados?
Tentei trabalhar o filme seguindo duas linhas. Quem faz a leitura de que é um retrato da Venezuela tem toda a razão: durante os dez anos em que desenvolvi o filme, fui roubando cada uma das coisas que acontecem da realidade venezuelana. Mas também quis deixar a história suficientemente aberta para permitir outra leitura: a de como os seres humanos são tolos. Sobretudo na América Latina, onde seguimos repetindo a estupidez política e social de submeter as pessoas a crises que não deveriam existir. Então, sim, me interessa essa leitura que vê outros lugares, que vê as consequências de um populismo absurdo. Um populismo que também está sendo vivenciado neste momento nos Estados Unidos. Isto talvez não estivesse tão claro em 2015, quando comecei a querer fazer este filme. Mas é algo que também ocorreu no Peru dos anos 1980, na Argentina recentemente…Por isso tentei fazer o que chamo de fábula distópica, ainda que cada detalhe do filme tenha sido inspirado em eventos reais que vi e vivi na Venezuela.

Muitos dos seus filmes, incluindo Zafari, mostram as consequências da crise de um país, ou de uma crise política, na vida íntima das pessoas. Ou seja, como a violência e a divisão da sociedade começa a se infiltrar dentro de cada casa e de cada família. Por que gosta dessa abordagem, dessa forma mais doméstica de falar sobre política?
Porque não quero sequer nomear o poder. Não quero dar a nenhum poder a possibilidade de ter protagonismo. Mas me importo muito com o modo como o poder nos afeta. Como pode nos destruir, nos despedaçar, nos ferir. É o mecanismo que usei, por exemplo, em Pelo Malo: quem deveria te amar, te destrói; quem deveria cuidar de você, não cuida; quem deveria te apoiar, não apoia. Quis fazer o mesmo em Zafari, para continuar explorando a forma como o poder se mete nas nossas vidas. E quis ir um pouco além ao dar uma possibilidade para Ana, que é, para mim, a personagem mais perdida. Digo que ela tem a estúpida inocência burguesa, e graças a isso é a única personagem que, no fim das contas, tem o poder de tomar uma decisão ética. Ela é tão tonta que pode dizer: “Não, não vou continuar nessa, não vou entrar nessa barbárie”. Sempre quis mostrar que todo ser humano que precisa tomar uma decisão ética também precisa sacrificar muita coisa. Todo ser humano que decide não se submeter a um dogmatismo, a uma tradição religiosa, ao poder, ao que quer que seja…Romper com tudo isso exige um sacrifício enorme, e é o que acontece com a Ana.
O filme aborda questões de classe a partir do relacionamento e do contraste entre duas famílias. Por que você decidiu adotar o ponto de vista da família mais rica?
Para poder construir como se chega a esse pior lugar da igualdade de classes. E eu também estava vindo de Pelo Malo, então queria mostrar o outro lugar, até com os mesmos atores [Samantha Castillo e Beto Benites atuam em ambos os filmes]. Queria continuar fazendo um panorama da sociedade, e sem maniqueísmo tolo entre bem e mal. É um mundo em que todos são vítimas do poder.
O espaço também é sempre importante nos seus filmes, e no caso de Zafari a narrativa está muito ligada ao edifício e à piscina. Gostaria que você falasse um pouco sobre esse espaço, e sobre como trabalhou com sua equipe para filmá-lo de forma a criar o universo e o clima que buscava, já que o filme também tem elementos do cinema de gênero.
Quando decidimos falar sobre fome, decidimos entrar nesse universo [do cinema de gênero]. Não levar o terror até as últimas consequências, mas falar sobre como a vida pode te colocar em uma situação de terror. Naquele momento, tudo o que eu tinha eram três atores. Não tinha país, não tinha nada, então pensei: “Qual o meu território? Meu território é o cinema. E o que cinema pode me oferecer como referência, se não tenho mais nada? Gênero”. Embora nunca tivesse trabalhado com cinema de gênero, entendi que ele também podia ser meu. Pensei: “Meu país é o cinema, meu território é o gênero e o que mais me interessa é o terror.” Então destilei o terror e usei alguns elementos para falar sobre fome, medo e solidão. Ao mesmo tempo, outra coisa que sempre construí, tanto no cinema quanto no meu trabalho nas artes plásticas, foram edifícios. A Venezuela teve a oportunidade de ter uma arquitetura modernista muito poderosa, e o modernismo nada mais é do que a escola de pensamento que falava sobre utopias —a utopia do proletariado, a utopia da igualdade. Este é outro território que exploro: o colapso das utopias. A utopia da igualdade fracassou. Em Caracas, fracassou. Como sou muito ligada a Caracas e fascinada por essa arquitetura, tenho de seguir construindo edifícios. O edifício de Zafari não existe, eu o construí cinematograficamente. O exterior está na República Dominicana, o interior é o de uma casa modernista e os corredores são de um outro prédio. Junto com a equipe de fotografia e de arte, juntei tudo isso para criar aquele edifício do filme que, para mim, significa o fracasso das utopias.
Que interessante, não sabia que não era uma locação real.
A cidade também foi construída, tudo no filme é feito de retalhos. As pessoas não percebem, mas para mim também era uma maneira de falar sobre o que aconteceu com o meu próprio mundo. Meu mundo desmoronou, ficou em pedaços como o hipopótamo. E tive de ir fazendo essa colagem para que se pareça a um lugar.

A Venezuela é um lugar sobre o qual se fala muito no Brasil, mas me parece que poucos brasileiros realmente conhecem a Venezuela ou de fato sabem sobre o que estão falando. Como o país é mencionado sobretudo no contexto das agendas políticas, de direita e esquerda, sua complexidade é muitas vezes reduzida a um debate simplista. Sendo assim, pergunto a você: o que gostaria que os brasileiros soubessem sobre a Venezuela? O que é algo real e verdadeiro sobre o seu país e o seu povo que você gostaria de compartilhar com a gente?
Esta pergunta é muito forte, porque sempre tive uma relação bem próxima ao Brasil. Trabalhei bastante no Brasil e tenho, quer dizer, tive muitos amigos no Brasil. Uma das coisas mais difíceis que me aconteceu nos últimos anos foi ter perdido meus amigos brasileiros, que não quiseram acreditar em mim quando eu falava sobre o que estava acontecendo na Venezuela. E talvez a coisa mais importante que eu possa dizer a eles, ainda que sigam sem acreditar em mim, é que tudo isso está acontecendo na Venezuela. Todos queriam acreditar em sua própria religião ou em seu próprio dogma, e por isso tinham muita dificuldade em acreditar em nós, venezuelanos, quando contávamos o que estava acontecendo. Acho que esse é o sentimento mais profundo para nós: além de sermos violados, também não acreditam em nós. E isso tem acontecido de maneira sistemática. Perdi a grande maioria das minhas amizades, e em especial as brasileiras, porque não acreditam em mim. Não acreditam no que temos vivido nos últimos quinze, vinte, oito, sete e mesmo no último ano —já que também não acreditaram que, em 2024, fomos [às urnas], votamos e fomos enganados. Se as pessoas tivessem percebido isso, se tivessem protestado naquele momento, se tivessem dito: “Vejam, está acontecendo algo que precisamos deter”, não estaríamos vivendo essa nova desgraça. Porque o que vivemos é isso: uma desgraça atrás de outra. Então aqueles que estão se manifestando agora também deveriam ter se manifestado no ano passado, dez anos atrás e quinze anos atrás, porque as coisas estão acontecendo desde então. É muito doloroso, porque sou uma pessoa de esquerda. Fui de esquerda a vida toda e continuo sendo, porque acredito na justiça social e nos direitos das minorias. Mas eles não acreditaram em mim. Não acreditaram em mim, e eu sinto muito.
Há muita coisa acontecendo neste momento no mundo —seja na Venezuela, nos Estados Unidos, no Brasil, em Gaza, no Irã. E em meio a tudo isso, devo dizer que às vezes sinto certa dificuldade em seguir escrevendo sobre cinema. Tenho grande amor pelo cinema e considero a arte essencial para a vida, mas, ao mesmo tempo, ela não é tão essencial quanto comida e água, aquilo que está em falta na história do seu filme. Vi uma entrevista na qual você falou sobre algo parecido, sobre como, numa crise humanitária como a da Venezuela, a maioria das pessoas não têm dinheiro para ir ao cinema. Então gostaria de saber como você se sente em relação a tudo isso. Como seguir fazendo arte e celebrando a arte em momentos tão duros quanto este, nos quais fazer isso parece ao mesmo tempo tão difícil e tão importante?
Passei muitos anos sem dirigir porque, bem, não dá para dirigir filmes quando não se tem país. Pude seguir produzindo, porque minha sócia é peruana. Mas dirigir, não, porque não tinha onde, nem como. E aí acabei fazendo Zafari, que é um filme incômodo. Acho que se os brasileiros que eram meus amigos forem ao cinema, vão sentir dor física, vão se incomodar muito com o que veem. É um filme desconfortável e estou ciente disso. Mas acredito que, como artista, este é o meu risco, esta é a minha decisão ética: é não te cair bem. Não quero te agradar. Quero que [o filme] te machuque, que você sinta aquilo no corpo, que não se esquive do que está acontecendo, que possa compreender. Não por vingança, mas para fazer um alerta: olhem, isso está acontecendo e isso pode machucar. E o filme é aberto porque sei que não somos os únicos. A Venezuela não é o único país [em situação difícil]. Então é um alerta para tudo o que está acontecendo e o muito que ainda vai acontecer no mundo. O mundo está realmente em colapso, a situação é caótica. Precisamos entender, precisamos nos unir com quem podemos nos unir, e acreditar uns nos outros como seres humanos. Eu acredito em você, você acredita em mim. Vamos fazer isso. Vamos fazer do mundo um lugar que possamos compartilhar. Então, para mim, [fazer arte] é como fazer um alerta.
Luísa Pécora é jornalista e criadora do Mulher no Cinema
Foto do topo: Gareth Cattermole/Getty Images for IMDb