Tudo o que você precisa saber sobre o coming-of-age alemão “Casulo”

Mulheres estão em frente e por trás das câmeras em Casulo, longa alemão que percorreu dezenas de festivais e agora pode ser visto pelo público brasileiro. Escrito e dirigido por Leonie Krippendorff, o filme está em cartaz em cinemas selecionados e disponível para espectadores de todo o Brasil na plataforma online Sala Maniva.

Casulo acompanha um verão inesquecível na vida de Nora, jovem de 14 anos que vive em Berlim. Tímida e observadora, Nora passa por transformações típicas da adolescência e descobre o amor com Romy, garota de espírito livre que lhe ajuda a conhecer um mundo novo.

Para marcar a estreia de Casulo no cinema e no streaming do Brasil, o Mulher no Cinema reuniu, abaixo, algumas curiosidades sobre os bastidores da produção. Confira:

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O filme foi exibido em 50 festivais, vários deles com temáticas jovens e queer

Casulo fez sua estreia mundial na edição de 2020 do Festival de Berlim, como o filme de abertura da mostra Generation 14plus, dedicada a produções sobre a juventude. O longa se enquadra no gênero conhecido como “coming-of-age”, termo em inglês usado para filmes que retratam um momento-chave da juventude, nos quais a personagem principal passa por um profundo processo de amadurecimento.

Casulo foi exibido em 50 outros festivais pelo mundo, incluindo brasileiros como o Cabíria e a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Também não faltaram exibições em festivais dedicados a temáticas LGBTQIA+, como o OutFest, em Los Angeles; o Queer Screen, em Sidney; o Beijing Queer, em Pequim; o Queer Moments, em Zagreb; e o CinéPride, em Nantes; entre vários outros. Além disso, Casulo foi escolhido como o melhor filme do Iris Prize LGBT+ Film Festival, importante prêmio entregue em Cardiff, no País de Gales.

A diretora Leonie Krippendorff com as atrizes Anna Lena Klenke, Lena Urzendowsky e Jella Haase no Festival de Berlim
– Foto: Gerald Matzka/picture alliance via Getty Images

É o segundo longa-metragem da diretora alemã Leonie Krippendorff

Nascida em Berlim em 1985, Leonie Krippendorff estudou na Academia de Cinema e Televisão Konrad Wolf. Ela realizou seu primeiro longa, Looping (2016), como trabalho de conclusão de curso, e depois desenvolveu o roteiro de Casulo no Berlinale Talents, prestigiado laboratório ligado ao Festival de Berlim.

Depois do lançamento do filme, ela entrou para a lista de “10 artistas europeus para ficar de olho”, que foi publicada em 2020 pela revista americana Variety. Agora, já tem dois novos projetos de longa-metragem em desenvolvimento. “Conto histórias a partir do estômago, não da cabeça”, definiu a cineasta, em entrevista ao canal do Teddy Awards no YouTube. “O espectador precisa sentir o filme e mergulhar naquele universo ao invés de questionar tudo o que está acontecendo.”

O roteiro de Casulo começou com uma cena de menstruação

Uma das cenas mais marcantes de Casulo mostra a personagem principal, Nora, vivendo sua primeira menstruação. A sequência chama a atenção pelo retrato realista deste momento, mostrando bastante sangue, e não apenas uma manchinha discreta na roupa. Além disso, é justamente nesta sequência que Nora conhece Romy, a garota por quem vai se apaixonar.

A diretora contou, em entrevistas, que todo o projeto partiu desta cena e da vontade de abordar os aspectos físicos da puberdade. “Sentia falta de ver um filme de coming-of-age que falasse de temas como menstruação e transformação do corpo”, contou Krippendorff à revista britânica DIVA. “Ao mesmo tempo, achei que seria muito bonito duas garotas se conhecerem assim: com Romy não tendo medo de lavar o sangue que estava na calça da Nora.” Assista à cena abaixo:

As atrizes principais foram as primeiras a fazer testes para o papel

É comum que os filmes protagonizados por atores jovens e pouco experientes tenham longos processos de seleção de elenco. Em Casulo, no entanto, as protagonistas Lena Urzendowsky e Jella Haase conquistaram a diretora logo de cara. No caso de Urzendowsky, foi quase amor à primeira vista: a diretora só tinha visto fotos da jovem atriz, mas sentia que ela era a pessoa certa para viver Nora. “Eu me apaixonei pelo rosto dela, que é muito intenso”, disse, na entrevista à revista DIVA.

Por sua vez, Jella Haase já tinha atuado no primeiro longa de Krippendorff, Looping. A atriz leu o roteiro de Casulo e pediu para interpretar Romy, mas a diretora tinha dúvidas se Haase, de 20 anos, seria muito madura para viver uma personagem de 17. No entanto, quando uniu Urzendowsky e Haase em um teste – o primeiro de todo o processo de seleção de elenco -, Krippendorff se impressionou com a química entre as duas e deixou as reservas de lado. Ela ainda viu outras meninas e outros testes, mas nenhuma dupla superou a primeira.

A região de Kotbusser Tor serve de cenário para “Casulo” – Foto: Divulgação

A região de Kottbusser Tor, em Berlim, é parte fundamental do filme

Casulo é uma daquelas produções em que a locação também funciona um pouco como personagem. A diretora optou por filmar na região de Kottbusser Tor, no distrito de Kreuzberg, uma das partes mais vibrantes e multiculturais de Berlim, que ela costumava frequentar quando era adolescente.

Boa parte do elenco masculino jovem do filme de fato mora no local, alguns até no próprio prédio em que muitas das cenas foram rodadas. Escolhidos em testes de elenco, esses jovens ajudaram a diretora a conhecer melhor a região e também tiveram liberdade para fazer algumas alterações no roteiro, deixando os diálogos mais próximos ao modo de falar da geração retratada no filme.

O visual do filme combina sonho e imagens de celular

Um dos destaques de Casulo é a fotografia de Martin Neumeyer, que inclusive foi premiada pela Associação dos Críticos de Cinema da Alemanha. Em sua colaboração com Leonie Krippendorff, o diretor de fotografia usou cores e iluminação para criar uma atmosfera que remete a sonho e fantasia. “Na minha cabeça, o filme retratava um verão inesquecível para Nora”, contou a diretora, em entrevista à Dazed Digital. “Por isso, queria que o filme já se parecesse com uma lembrança.”

Em outros momentos, as imagens de Casulo deixam de ocupar toda a tela e assumem o formato vertical típico das imagens feitas por celular e publicadas nas redes sociais. Inseridos em diversos pontos da narrativa, esses vídeos-diários dialogam com o interesse dos adolescentes pela tecnologia e também funcionam como um espaço de expressão para a protagonista. Principalmente no início do filme, quando Nora ainda está começando a se descobrir, os vídeos-diários oferecem sua perspectiva do mundo.

Imagem do filme “Casulo”, de Leonie Krippendorff – Foto: Divulgação

O roteiro é pontuado por metáforas e referências

O título Casulo já deixa clara a principal metáfora do filme: Nora é uma jovem em transformação, que está saindo de uma etapa da vida para viver outra. Mas a comparação não fica apenas no título: a protagonista de fato cria lagartas e cuida delas até virarem borboletas.

Várias referências culturais também permeiam o roteiro de Casulo. Em determinado momento, Nora encontra uma cópia do livro Corpos que importam: os limites discursivos do “sexo”, escrito por Judith Butler; em outro, é impactada por uma apresentação de Romy na qual imagens de explosões são projetadas ao som de “Space Oddity”, de David Bowie. Outras obras que marcam a narrativa são o poema “A Mariposa”, de Isabel Tuengerthal, e a canção “She”, de Alice Phoebe Lou.

Veja o trailer de Casulo:


* Este texto foi produzido pelo Mulher no Cinema e patrocinado pela Olhar Distribuição

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