7 perguntas para Isabél Zuaa, de “As Boas Maneiras”

Há vários motivos para se assistir ao terror brasileiro As Boas Maneiras, dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, que estreou nos cinemas na quinta-feira (7) após fazer premiada carreira em festivais nacionais e estrangeiros. Um destes motivos é o trabalho da atriz portuguesa Isabél Zuaa, que no papel da protagonista, Clara, guia o espectador por uma história que é de fantasia, mas também diz muito sobre a realidade brasileira.

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Clara é uma mulher negra que vive na periferia de São Paulo e se candidata ao cargo de babá do filho da grávida Ana (Marjorie Estiano), moradora de um bairro nobre. Ao ser contratada, tem de assumir, também, a função de empregada. Conforme a gravidez avança, Ana tem comportamentos cada vez mais estranhos, e a dinâmica entre as duas mulheres evolui para um relacionamento amoroso. “O afeto é a reviravolta do filme”, disse Zuaa, em entrevista ao Mulher no Cinema. “O interessante é quando o personagem até tem características que a gente já conhece, estereótipos e preconceitos, mas isso é de alguma forma transformado. É muito importante esse afeto, que afeta os personagens e, logo, o espectador.”

Zuaa está no Brasil há quase oito anos, e até agora era principalmente conhecida pelo papel da escrava Preta em Joaquim (2007), de Marcelo Gomes. Quando chegou ao País, causava surpresa ao dizer que nascera e fora criada em Portugal: “Na convenção, a portuguesa é uma mulher branca, é a Maria”, explica. A cultura africana tem papel fundamental na vida pessoal e profissional da atriz, que é filha de uma angolana e de um nativo da Guiné-Bissau, e que começou no Brasil uma pesquisa sobre a mulher negra como anfitriã e protagonista das suas histórias.

“Foi muito complexo entender a posição da mulher negra no Brasil, entender o que a minha imagem significa, como ela é vista”, afirmou. “Fui colocando sementinhas de coisas que acho muito importantes e que agora já são mais faladas, como a importância de ter o seu cabelo natural ou de entender porque você alisa o cabelo, a importância de gostar de como você é, de não ter constrangimento de ser e estar”, acrescentou. “Como sempre digo: To be or not to be? To be!”

Leia os principais trechos da entrevista com Isabél Zuaa:

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A Clara é mulher, negra, lésbica e periférica, ou seja, faz parte dos grupos menos representados pelo cinema. Como foi interpretar esta personagem e qual a importância desse tipo de representatividade?
Ter uma personagem com essa vivência e com essas características é muito importante, mas ao mesmo tempo é muito delicado. Porque ela tem algumas coisas não tão positivas na sua vivência: é uma estudante de enfermagem que não conseguiu terminar [o curso] e acaba sendo empregada na casa da Ana – vai ser babá, mas acaba fazendo outro tipo de tarefa. É complicado por isso, por esses abusos de poder que a gente está acostumado a ver. Mas [no filme] esse abuso vai sendo alterado pelo afeto. Essa é a reviravolta do filme. Sem isso, para mim não seria tão interessante. O interessante é quando o personagem até tem características que a gente já conhece, estereótipos e preconceitos, mas isso é de alguma forma transformado. Para mim, é muito importante esse afeto, que afeta os personagens e, logo, o espectador.

Marjorie Estiano e Isabél Zuaa em cena de “As Boas Maneiras”

Como foi trabalhar a mudança da sua personagem nos dois atos do filme?
São duas fases realmente diferentes. A gente conversou e ensaiou bastante, mas foi um trabalho muito intuitivo. Os diretores sabiam o que queriam contar e eu fui agindo com a minha intuição, pois é assim que trabalho meus personagens. Na primeira parte houve um rigor maior na interpretação, nos movimentos, sabia até quantos passos ia dar. Era mais regrado. Na segunda parte era mais descontrolado, porque a própria cena permitia isso.

Você veio ao Brasil para ficar cinco meses, mas agora já são quase oito anos. Por que ficou?
Vim fazer um intercâmbio de artes cênicas na Unirio e acabei ficando. Dentro da faculdade comecei a colaborar em grupos de pesquisa e a dar aulas de dança africana. Também colaborei com o coreógrafo Gustavo Ciríaco, montei um monólogo e comecei uma pesquisa sobre a mulher negra como anfitriã e protagonista das suas histórias. Então foi acontecendo. Todos os anos eu ia para Portugal e tinha projetos lá, mas acabava sempre querendo voltar. Vim para cá com 22 anos, muito novinha. O Brasil me trata muito bem e me abre várias portas todos os dias.

Você começou sua pesquisa sobre a mulher negra aqui no Brasil?
Comecei, porque para mim foi muito complexo entender a posição da mulher negra no Brasil, me deparar com esta situação, entender o que a minha imagem significa, como ela é vista. Comecei a desenvolver esse trabalho, dar aulas em hospitais, comunidades, no country club de Ipanema [risos] Em lugares bem diferentes, mas fui colocando sementinhas de coisas que acho muito importantes e que agora já são mais faladas, como a importância de ter o seu cabelo natural ou de entender porque você alisa o cabelo, a importância de gostar de como você é, de não ter constrangimento de ser e estar. Como sempre digo: To be or not to be? To be! [Ser ou não ser? Ser!].

Marco Dutra, Marjorie Estiano, Juliana Rojas e Isabél Zuaa no Festival de Locarno,
que premiou “As Boas Maneiras”/Foto: Locarno Festival/Sailas Vanetti

Pela sua própria origem e também pelas escolhas que fez, você transita muito entre Portugal, Brasil e alguns países da África. Falta mais intercâmbio cultural entre esses lugares, que estão ligados historicamente?
Digo que vivo um triângulo amoroso entre Portugal, Brasil e África – na verdade Angola, o país da minha mãe; Guiné-Bissau, o do meu pai; e Cabo Verde, onde cresci artisticamente. Sinto falta desse intercâmbio maior. Na literatura até existe: o Mia Couto vem aqui, a Fernanda Torres lê textos dele. E Mia Couto é um escritor moçambicano branco, primeira geração nascendo lá. E eu sou preta, primeira geração nascendo em Portugal. A gente tem uma diversidade. Quando cheguei ao Brasil e falava que era portuguesa, as pessoas não conseguiam entender. Na convenção, a portuguesa é uma mulher branca, é a Maria. Senti necessidade de trazer essa realidade, de compartilhar coisas positivas de Portugal e dos países da África dos quais tenho referência e origem. O intercâmbio está aumentando, mas é sempre necessário mais. O Brasil chega bastante a Portugal, desde criança a gente brinca de novela, canta, assiste a séries, filmes e shows. Agora Portugal está vindo de novo para o Brasil com a música e o cinema. Nossa geração está começando a se interessar [por essa troca] de maneira positiva, sem estereótipos, sem preconceitos. Querendo conhecer de verdade, porque todos fazemos parte deste triângulo.

O que precisa ser feito para que as atrizes negras tenham oportunidades iguais de trabalho?
É preciso começar pela dramaturgia. É um trabalho que parte do texto, de quem escreve, de quem pesquisa. Normalmente é sempre um olhar do outro em relação a esse corpo, um olhar desconhecido, que imagina que seja assim. Acho importante a escuta de quem quer escrever. E também que se aliem a pessoas que tenham experiências concretas, porque o trabalho dele ou dela vai ficar mais forte. Contudo, utilizar o artístico para mudar o social é importante, mas não essencial. É claro que temos de ter atenção com o que fazemos artisticamente, porque é um ato político e social, que vai reverberar nessas camadas. Mas também tem de haver a licença poética. Temos de entender o que já foi feito, o que não foi feito, o que tem de ser dito para criar mais diversidade. E é importante não ter medo de errar. Ninguém nasce ensinado, e o medo ou cautela deve ser em relação a persistir no erro – errar e não assumir. Ninguém vai bater em ninguém, gente. Estamos aprendendo todos os dias, estamos crescendo. O importante é tentar aprender, realmente. Tentar aprender para desprender.

Qual conselho você daria para as mulheres que querem trabalhar no cinema?
Que não tenham constrangimento de chegar e de não saber. E que o foco não seja só esse. Por que para elas é essencial trabalhar no cinema? Tem de haver uma alavanca interna para a gente trabalhar onde quer que for: pilotar um avião, entrar na maquinaria do cinema, na dramaturgia, ser atriz. Tem de haver uma alavanca, um motor mesmo, alguma coisa que faça com que seja essencial estar neste lugar. Senão, é só mais uma coisa. A gente faz a diferença quando entende nosso caminho, nosso foco. O trabalho fala pela gente: nossa bandeira é levantada, mas automaticamente, pela nossa postura, pelas nossas ações, pelas nossas palavras, mais do que por outras coisas. É mais certeiro entender seu motor e seguir.

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Veja o trailer de As Boas Maneiras:


Luísa Pécora é jornalista, criadora e editora do Mulher no Cinema

Foto do topo: Ali Karakas

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