Proibido pelo governo do Quênia, “Rafiki” retrata amor entre jovens mulheres

Segundo longa da diretora Wanuri Kahiu, Rafiki chega à Mostra Internacional de Cinema em São Paulo depois de tornar-se o primeiro filme queniano selecionado para o Festival de Cannes. Ser exibido em seu próprio país, porém, não foi nada fácil: Rafiki foi banido pelo governo “por sua temática homossexual e clara intenção em promover o lesbianismo no Quênia”.

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A decisão foi além, dizendo que qualquer pessoa que portasse o filme estaria infringindo as leis do país, onde sexo gay é punido com até 14 anos de prisão. Na justiça, a diretora conseguiu que Rafiki fosse exibido por sete dias, o necessário para disputar a pré-indicação do Quênia ao Oscar de filme estrangeiro. A pré-indicação não veio; as salas, ficaram lotadas.

Neste contexto, a primeira coisa a se saber sobre Rafiki é que a proibição se deveu unicamente à discriminatória legislação do Quênia. Pois embora Kahiu tenha sido corajosa na escolha do tema, o filme não traz nenhum elemento especialmente provocador. É, ao contrário, até excessivamente convencional, uma versão queniana e lésbica de Romeu e Julieta.

A diretora Wanuri Kahiu e as atrizes Samantha Mugatsia e Sheila Munyiva em Cannes / Foto: AFP

A inspiração do roteiro é o conto Jambula Tree, da escritora ugandense Monica Arac de Nyeko, sobre duas jovens que são filhas de políticos rivais. Kena (Samantha Mugatsia) é tímida e quieta, anda basicamente com colegas homens e tenta manter a paz entre os pais divorciados. Ziki (Sheila Munyiva) gosta de dançar, tem espírito livre e cabelos coloridos. Em comum, as duas têm a vontade de ir além dos papéis atribuídos às jovens quenianas. Seus sonhos incluem cursar a universidade e viajar pelo mundo – ou seja, tomar caminhos diferentes dos de seus pais. No caminho das garotas está uma sociedade conservadora, que responde de forma violenta à crescente intimidade entre Kena e Ziki.

Rafiki se beneficiaria de um melhor tratamento a alguns dos personagens coadjuvantes, como um jovem gay que entra mudo e sai calado, apenas para simbolizar a violência que também atinge os homens homossexuais, e a melhor amiga de Ziki, cujo ataque de ciúme contra Kena faz lembrar algumas das piores vilãs adolescentes dos filmes americanos.

O foco está mesmo nas protagonistas, que são carismáticas e filmadas por Kahiu com evidente carinho. A diretora aproveita a iluminação natural e as cores de figurinos e cenários para criar um visual bonito e caloroso, que contrasta com a violência e o isolamento ao qual as garotas são submetidas. O resultado é um filme mediano, mas que precisa poder ser visto.

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Este filme passa no teste de Bechdel-Wallace. Clique para saber mais.“Rafiki”
[Quênia/África do Sul/França/Holanda/Alemanha/Noruega, 2018]
Direção: Wanuri Kahiu
Elenco: Samantha Mugatsia, Sheila Munyiva, Jimmi Gathu.
Duração: 82 minutos
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Luísa Pécora é jornalista, criadora e editora do Mulher no Cinema

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