Com leveza, “O Mau Exemplo de Cameron Post” discute religião, intolerância e “cura gay”

Premiado em Sundance e em cartaz na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, O Mau Exemplo de Cameron Post é um filme de ficção ambientado nos Estados Unidos na década de 1990. No entanto, o longa dirigido por Desiree Akhavan traça um retrato dolorosamente atual não apenas da sociedade americana, mas também da brasileira.

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Autora do roteiro ao lado de Cecilia Frugiuele, Akhavan adaptou para as telas o livro homônimo escrito por Emily M. Danforth e publicado em 2012. Embora ficcional, o romance foi inspirado na história de Zach Stark, jovem americano que em 2005 foi enviado pelos pais a um acampamento cristão que prometia transformar adolescentes gays em heterossexuais.

O livro e o filme colocam uma garota no centro da trama: Cameron Post, vivida nas telas pela ótima Chloë Grace Moretz. Órfã de pai e mãe e criada pela tia conservadora e religiosa, ela é flagrada aos beijos com outra jovem na noite de seu baile de formatura do colégio. A resposta da família é internar Cameron em uma clínica evangélica de “cura gay” chamada God’s Promise, ou Promessa de Deus. O local é comandado pela psicóloga Lydia Marsh (Jennifer Ehle, excelente) e por seu irmão, o reverendo Rick (John Gallagher Jr.), que afirma ser, ele mesmo, prova da eficácia dos métodos da God’s Promise.

Chloë Grace Moretz é a protagonista de “O Mau Exemplo de Cameron Post”

Tais métodos incluem, além do internato, orações constantes e sessões de terapia nas quais os adolescente são instigados a mapear os aspectos de sua trajetória que levaram à atração por pessoas do mesmo sexo. Os estereótipos de gênero, é claro, são abundantes: meninas são levadas a culpar o gosto precoce por esportes; meninos, o tempo que passaram fazendo atividades “femininas” com as mães. Cameron resiste como pode, apoiando-se principalmente em dois novos amigos: Jane (Sasha Lane, revelada em Docinho da América) e Adam (Forrest Goodluck, de O Regresso).

O cenário deCameron Post remete ao excelente documentário Jesus Camp (2006), dirigido por Rachel Grady e Heidi Ewing, sobre um acampamento americano que doutrinava crianças sobre diversos assuntos, de aborto a aquecimento global. Cada um à sua maneira, os dois filmes mostram como líderes religiosos veem os jovens de forma estratégica – soldados que podem ser treinados para defender os princípios e interesses do grupo a longo prazo.

No caso de Cameron Post, a opção é por um tom leve e por diálogos espirituosos que frequentemente provocam risadas da plateia. Mas o fato de os personagens nunca caírem na caricatura garante que comentários mais absurdos sempre soem reais, tirados do noticiário ou de um almoço de família, sobretudo diante da onda conservadora que atinge diferentes países do mundo, inclusive o Brasil. Ao mesmo tempo engraçado e comovente, Cameron Post é um filme sobre a intolerância e sobre como fazer alguém odiar a si mesmo é cometer um ato de violência.

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Este filme passa no teste de Bechdel-Wallace. Clique para saber mais.“O Mau Exemplo de Cameron Post”
[The Miseducation of Cameron Post, EUA, 2018]
Direção: Desiree Akhavan
Elenco: Chloë Grace Moretz, Sasha Lane, Jennifer Ehle.
Duração: 91 minutos
Consulte os horários de exibição na Mostra


Luísa Pécora é jornalista, criadora e editora do Mulher no Cinema

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