Fernanda Tovar sobre “Chicas Tristes”: “Quis fazer o filme mais amoroso possível”

Em uma das imagens mais marcantes de Chicas Tristes, primeiro longa-metragem da diretora mexicana Fernanda Tovar, duas adolescentes são vistas de costas, reclinadas em cadeiras de praia na laje de um prédio. Levando os braços para o alto, elas conversam por meio de animais que criam com as mãos, como as crianças costumam fazer numa brincadeira à luz de velas ou lanternas. No entanto, o dia está claro e o céu está azul. E quando as mãos das duas se encontram, o que se forma é um coração.

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É com cenas afetuosas e ensolaradas como essa que Tovar aborda um tema duro: o abuso sexual durante a adolescência. Se muitos filmes retratam o isolamento das vítimas, e a solidão no enfrentamento do trauma, Chicas Tristes indica a intenção de tomar outro caminho já no plural do título. Aqui, a protagonista não está sozinha, e a história também é sobre a força da amizade no processo de seguir em frente.

“O norte, para mim, sempre foi fazer o filme mais amoroso possível”, disse a diretora, em entrevista ao Mulher no Cinema. “Obviamente [o abuso sexual] é algo muito complexo e cheio de dor, mas acho que também é possível ter esperança. E neste filme a esperança é essa amiga.”

Cena do filme "Chicas Tristes", de Fernanda Tovar
Cena do filme “Chicas Tristes”, de Fernanda Tovar

Chicas Tristes é um dos destaques da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, que fica em cartaz até 29 de outubro. O evento paulistano é a mais recente parada da bem-sucedida trajetória internacional do filme, que começou no Festival de Berlim, onde venceu o principal prêmio da mostra Generation 14plus.

No centro da trama estão Paula e La Maestra, interpretadas pelas talentosas Darana Álvarez e Rocío Guzmán, ambas estreantes em longas-metragens. Aos 16 anos, elas são amigas inseparáveis e treinam juntas em um time de natação que está prestes a viajar ao Brasil para uma importante competição. Mas seus planos são subitamente abalados por um acontecimento traumático: durante uma festa, Paula flerta com Daniel, outro colega de equipe, que força uma relação sexual sem consentimento.

De início, Paula prefere não falar muito. Depois, se abre com La Maestra, e as duas recorrem a um chatbox para perguntar se o que ocorreu foi um estupro. Quando entendem que sim, sentem impulsos diferentes. Paula quer abandonar a equipe e manter o caso em segredo, enquanto La Maestra quer agir e garantir que as consequências recaiam sobre Daniel, e não sobre a amiga.

Também autora do roteiro, Fernanda Tovar veio a São Paulo para as exibições da Mostra, e conversou com o Mulher no Cinema dois dias antes do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras. Nascida na Cidade do México em 1991, ela fala bem português e incluiu duas canções nacionais na trilha de Chicas Tristes: “Anunciação”, de Alçeu Valença, e “Madureira”, de Arlindo Cruz.

Leia a entrevista com ela:

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O seu filme aborda um tema muito duro, mas não é um filme duro de assistir. É marcado pela tristeza, mencionada inclusive no título, mas também pela alegria e a esperança. E mostra a solidão de quem passa por uma experiência de abuso sexual, ao mesmo tempo em que coloca uma grande amiga ao lado da protagonista. Como você chegou a este equilíbrio de tom e a este jeito específico de contar esta história?

O norte para mim, e para toda equipe, sempre foi fazer o filme mais amoroso possível. Em cada cena estávamos sempre buscando isso —na imagem, na atuação, em tudo. Como espectadora, ao longo da minha vida, assisti a filmes sobre esse tema que eram muito dolorosos e difíceis de assistir, inclusive no modo em que falavam sobre o destino das vítimas. Obviamente [o abuso sexual] é algo muito complexo e cheio de dor, mas acho que também é possível ter esperança e achar coisas boas. E neste filme a esperança é essa amiga.

Cena de “Chicas Tristes”, de Fernanda Tovar

Uma das cenas mais bonitas do filme é aquela em que Paula finalmente conta sobre o abuso para La Maestra durante uma aula de dança na rua. O que você pode contar sobre essa cena, tanto no que diz respeito à escrita quanto à filmagem?

Tudo começou com uma ideia muito prática. Eu achava que a cena seria difícil para as atrizes, porque as emoções eram complexas, e queria dar a ela algo que pudessem fazer. Porque quando estamos fazendo algo, ficamos concentrados nessa outra coisa. Em segundo lugar, a dança tem um papel importante no filme, e me dava uma oportunidade de ter dois níveis de comunicação entre as personagens: além do nível da fala, também um nível mais físico, mais corporal. Elas ficam tocando uma na outra, se afastando, ficando mais perto…Foi, de fato, a única cena que ensaiamos antes da filmagem. Eu tinha planejado fazer mais planos, fazer close-up. Mas rodamos a cena umas dez vezes e me lembro de que, na última, todas as mulheres da equipe estavam chorando. Então eu disse: “Nossa, gente, está ótimo. Não precisamos fazer outra vez, não precisamos fazer as atrizes passarem por essas emoções de novo, está suficientemente forte”. E, pronto, não fiz mais. Ficou assim. As atrizes foram incríveis nessa cena, e muito generosas uma com a outra.

Me impressionou especialmente a atuação de Darana Álvarez, que tem uma mudança muito grande ao longo do filme. Paula começa muito feliz e cheia de vida, mas sua expressão e seu movimento corporal mudam imediatamente após sofrer o abuso. Como foi o trabalho com ela, sobretudo no que diz respeito a essa transição?

Este foi o primeiro filme da Darana. Eu tinha uma espécie de mapa das cenas, no qual a transição da Paula estava muito clara. Mas acho que a Darana também tinha tudo muito interiorizado. As cenas da festa foram das primeiras que fizemos, logo no segundo e no terceiro dia de trabalho. Isso foi importante, porque deixou claro para as meninas como tudo tinha acontecido, e porque os sentimentos da festa ficaram com a gente durante toda a filmagem. Darana é uma menina extremamente inteligente e sabia muito bem o que estava acontecendo. Ela tinha muita clareza quanto [ao estado da personagem] em cada momento do filme e fez um trabalho muito delicado para marcar isso com coisas pequenas.

O som do filme também é muito interessante: às vezes ele está muito presente, às vezes fica abafado, às vezes não ouvimos som nenhum, como em um momento na piscina. Como foram suas conversas com a equipe?

Para mim, o som sempre foi uma possibilidade de entrar mais no plano emocional do que no narrativo. Achava que a história era suficientemente clara, e portanto não era preciso reiterar [com o som] aquilo que já sabíamos, podíamos fazer coisas novas. Então o som era uma forma de amplificar as emoções com as quais as meninas estavam lidando. No começo do filme, a Maestra não para de falar, há muito barulho, música, tudo. Depois, o mundo vai começando a ficar mais silencioso, como parte da ansiedade de não saber bem o que aconteceu, da construção, da perda da inocência. Para usar o som dessa forma, foi preciso trabalhar com muita flexibilidade. A opção menos pensada é quase sempre a mais emocional. E esta sempre foi nossa missão. 

Cena do filme “Chicas Tristes”, de Fernanda Tovar

Quando recomendo filmes sobre adolescentes, sobretudo os que são centrados em meninas, percebo que muitas pessoas sentem que não é para elas. Não apenas os homens, mas também quem está acima da faixa etária das personagens. Gostaria de saber como você tem sentido a recepção do público. Chicas Tristes é visto como uma história universal, não só no sentido de que o que acontece com aquela menina acontece em qualquer lugar do mundo, mas no sentido de que pode tocar qualquer tipo de pessoa?

Sim, acho que sim. Obviamente [a identificação] é mais forte para meninas e mulheres. Mas neste último ano fomos apresentar o filme em todos os continentes, e em todo lugar vi muitas pessoas comovidas, de todas as idades e também homens. Não acho que o filme fala só para as mulheres. Para começar, é um filme sobre amizade, que é um tema universal. Depois, infelizmente todo mundo está envolvido em uma situação assim, de algum jeito ou de outro. E acho importante que os homens assistam aos filmes [sobre esse tema], a partir de seu próprio lugar, porque o problema da violência sexual não vai se resolver só entre as mulheres. É um problema de todo mundo e o filme tem sido recebido assim, como um filme para todo tipo de público. As reações são diversas, mas acho que sempre partem do carinho e do amor.

Você participa do Coletivo Colmena, que se define como um grupo de “cineastas independentes que creem no cinema como força transformadora do indivíduo e da sociedade”. Aqui no Brasil, estamos no meio de um processo eleitoral que pode levar a extrema direita de volta ao poder, o que representaria uma grande ameaça também ao nosso cinema. Neste momento, o que você diria a seus colegas brasileiros e latino-americanos, já que muitos países do continente vivem cenário parecido? Como seguir em frente?

Sempre foi difícil para a gente. Não é a mesma coisa ser um cineasta da América Latina e da Europa. A gente sabe que sempre tem de trabalhar mais duro, porque as oportunidades são menores, porque precisamos fazer outra coisa enquanto escrevemos o roteiro. É óbvio que fico triste, que estou preocupada com o Brasil, com a Argentina, com os colegas em geral. Mas a situação sempre foi complicada. Então o que a gente precisa fazer é não desistir. O cinema e as artes se adaptam a outros tempos. Ainda que seja difícil, não podemos deixar de fazer cinema, de contar histórias, de narrar a realidade a partir do nosso olhar. E é importante saber que existem pontes entre a América Latina. Vejo cada vez mais coproduções entre países latino-americanos, e acho que é importante nos unirmos. Entre mais gente, a briga é mais forte. Tenho certeza de que [se a extrema direita vencer a eleição] o cinema brasileiro vai conseguir se adaptar e continuar existindo. Seria uma perda muito grande para o mundo ficar sem o cinema brasileiro, assim como seria ficar sem o cinema argentino. A gente não tem outra opção. Não podemos deixar de fazer cinema. Acho que isso sequer deve estar na nossa cabeça.


Luísa Pécora é jornalista e criadora do Mulher no Cinema

Foto do topo: Mario Miranda Filho/Agência Foto

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