Diretoras brasileiras respondem: qual o melhor filme dirigido por mulher do ano?

"Coração de Cachorro", de Laurie Anderson

É quase uma tradição de Natal: chega o mês de dezembro, chegam também as listas de melhores do ano, publicadas por críticos de todo o mundo. Mas você já quis saber quais foram os filmes preferidos de quem faz cinema?

Para matar essa curiosidade – e receber boas dicas! – Mulher no Cinema conversou com diretoras brasileiras que lançaram filmes este ano e perguntou: qual foi o melhor longa-metragem dirigido por mulher de 2016? E por quê?

As cineastas puderam escolher qualquer título, nacional ou estrangeiro, desde que tenha sido lançado nos cinemas brasileiros desde janeiro (e que tenha direção feminina, claro). Valeram, também, produções originais da Netflix que estrearam direto no streaming – mas não filmes antigos que tenham sido vistos em 2016.

As respostas foram bem variadas: só dois filmes foram citados mais de uma vez. Confira:

Cris D’Amato, diretora de É Fada!
“Sou romântica e amei, chorei que nem uma louca, em Como Eu Era Antes de Você, de Thea Sharrock. É um filme tocante, muito bem dirigido, com um elenco lindo, com planos belíssimos. Confesso que não parei de chorar naquele final, depois daquele amor tão verdadeiro, tão delicado. Fiquei super feliz de ter visto a interpretação dos atores…Enfim, para mim é Como Eu Era Antes de Você. Queria ter feito esse filme, sabe? [Pensei] ‘Ai meu Deus, porque não tive uma ideia como essa?’ É muito, muito, muito bonito. Achei todo o filme bonito, a fotografia, a direção de arte, a direção é primorosa…Fiquei muito impactada. É uma bobagem, um filminho água com açúcar. Mas eu acho tão lindo!”

Fernanda Lippi, diretora de Onde o Mar Descansa
“Minha escolha é Coração de Cachorro, de Laurie Anderson. Este filme é uma meditação refrativa sobre questões de vida e morte que revisita o Livro Tibetano dos Mortos através de seu relacionamento com seu amado cão Lolabelle. A animação e as imagens Super 8 dão textura pessoal aos fragmentos oníricos do documentário; a narração suave (a voz aveludada de Anderson) proporciona uma intensidade poética. O filme em si investiga a natureza do fenômeno da narrativa, a transitoriedade da vida e a libertação do amor. [Anderson é] Uma das minhas artistas favoritas. Este filme afirma que existe sim um publico ávido do não-banal e consumidores de filmes exigentes.”

Fernanda Vareille, diretora de A Loucura Entre Nós
“Meu voto vai para o filme Meu Rei, de Maïwenn. Sou fã do cinema dela. Ela mistura um jeito de filmar um pouco documental, com a câmera mais livre, que me encanta. Dá para ver que ela mergulha de verdade no universo retratado. Outro filme dela de que gosto muito é Polisse (2011).”

Helena Ignez, diretora de Ralé
“O melhor para mim foi Mate-me Por Favor, da Anita Rocha da Silveira, pelo frescor e talento apresentado pela diretora.”

Julia Rezende, diretora de Um Namorado Para Minha Mulher
“Meu filme preferido dirigido por uma mulher esse ano é o doc da Adriana Dutra, o Quanto Tempo o Tempo Tem. Adorei esse filme, saí do cinema com vontade de estudar, de ler, de pensar sobre o assunto. Ela conseguiu uma abordagem tão rica, uma reflexão profunda sobre um tema difícil de ser abordado.”

Juliana de Carvalho, diretora de São Sebastião do Rio de Janeiro – A Formação de uma Cidade
“Meu preferido foi Meu Rei, dirigido pela francesa Maïwenn, com Vincent Cassel e Emmanuelle Bercot, que ganhou o prêmio [de melhor atriz] em Cannes [em 2015]. Adorei o filme porque conheço essa história – eu e muitas mulheres do mundo. Acho que só uma mulher que viveu essa história pode contar o que é amar um homem manipulador, sedutor e abusivo. A protagonista se machuca de verdade, e a direção estrutura todo o filme entre a metáfora do machucado do corpo e da alma. É um filme quase didático, básico para o entendimento da psique e [das] fraquezas do gênero feminino quando às vezes as mulheres ‘amam demais’, amam além de si mesmas, tornam-se dependentes e perdem a liberdade da alma.”

Lô Politi, diretora de Jonas
“Minha escolha é Coração de Cachorro, de Laurie Anderson. É um filme tão pessoal, tão delicado, tão feminino. Já era muito fã da Laurie Anderson, artista com tantos talentos complementares, faltava o cinema. E amo esse tipo de documentário pessoal, que nos dá a impressão que o autor vai bordando, bordando, até que o conjunto vira um filme pequeno e poderoso, como esse.”

Marcia Paraíso, diretora de Lua em Sagitário
“Meu voto vai para a Tata Amaral, com Trago Comigo. Tenho a Tata como uma cineasta inspiradora, mobilizadora e corajosa. Nesses seus 30 anos de trabalho ela construiu, a cada proposta, uma estética sua, com a qual me identifico muito. O dito ‘mercado’ é uma consequência de seu trabalho, não algo que ela busque e ao qual force pertencer. Trago Comigo é uma obra que mescla dramaturgia e realidade e é para ficar, para se discutir, para se compreender a atualidade e os rumos que o Brasil tem seguido, nessa nossa frágil e tão juvenil democracia.”

Paula Gaitán, diretora de Exilados do Vulcão
“Gosto muito dos filmes de algumas diretoras que ultrapassam a barreira do tempo, são atemporais. Não julgo cinema de acordo com uma data precisa. Poderia nomear filmes que constantemente estou vendo para me inspirar e para pensar cinema, como os de Chantal Akerman, Marie Menken e Tacita Dean. E a [minha] grande descoberta este ano foi conhecer e fazer um filme sobre a Yvonne Rainer, uma grande autora, coreógrafa e também cineasta. Assisti a todos os seus filmes. Entre os longas que foram lançados no Brasil este ano, destaco Sinfonia da Necrópole, da Juliana Rojas, e também as propostas visuais que abrangem vida e arte de Helena Ignez, que faz parte da lista [de lançamentos do ano, com Ralé]. De modo geral, autoras como Lina Chamie e Marília Rocha me atraem pela sua singularidade. E há jovens diretoras fascinantes, como Ana Carolina Soares, Juliana Antunes e Ava Rocha, minha filha, que também é diretora.”

Sandra Kogut, diretora de Campo Grande
“Fico com Futuro Junho, da minha amiga Maria Augusta Ramos, um filme que adorei desde que vi ano passado no Festival do Rio. Sou fã do trabalho da Guta. Admiro o rigor, a pertinência, a maturidade. Ela não cai em armadilhas fáceis, tem a firmeza e a coragem de dar o tempo necessário às cenas, aos personagens. Faz os filmes por necessidade genuína de falar daqueles assuntos, olhar para aquelas pessoas, sempre na distância certa, com curiosidade e perplexidade. Admiro a exigência e a honestidade do trabalho. Futuro Junho é um grande filme, que só fica mais atual com o passar do tempo.”

Sandra Werneck, diretora de Os Outros
“Meu filme preferido é Agnus Dei, de Anne Fontaine. Por ser um tema forte, diferente, curioso, [além da] linda fotografia em preto e branco, ótimas atuações, belos planos e um roteiro bem escrito e com tempo de reflexão.”

Tata Amaral, diretora de Trago Comigo
“O filme brasileiro dirigido por mulher que mais gostei e que estreou este ano foi Mãe Só Há Uma, de Anna Muylaert, por apresentar, numa linguagem pop e divertida, uma história intensa que envolve sexualidade, gênero, aceitação e amor. No entanto, não posso deixar de ressaltar a grande quantidade e qualidade de filmes dirigidos por mulheres lançados em 2016. Amores Urbanos, de Vera Egito; O Começo da Vida, de Estela Renner; Jonas, de Lô Polliti; A Loucura Entre Nós, de Fernanda Vareille; Lua em Sagitário, de Marcia Paraíso; Marias, de Joana Mariani; Mate-me Por Favor, de Anita Rocha da Silveira; Meu Nome é Jacque, de Angela Zoé; Milagres Do Paraíso, de Patricia Riggen; Um Namorado Para Minha Mulher, de Julia Rezende; O Plano de Maggie, de Rebecca Miller; Quanto Tempo o Tempo Tem, de Adriana Dutra; Ralé, de Helena Ignez; São Sebastião do Rio de Janeiro – A Formação de uma Cidade, de Juliana de Carvalho; Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas; Exilados do Vulcão, de Paula Gaitán; Campo Grande, de Sandra Kogut; É Fada!, de Cris D’Amato; Futuro Junho, de Maria Augusta Ramos. Viva o cinema feito por mulheres.”

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