Brasileira quer criar prêmio para roteiros sobre mulheres

Antes mesmo de se formar em cinema, a roteirista Marília Nogueira sempre gostou de criar histórias. Um dia, percebeu que a maior parte de seus contos e roteiros tinham protagonistas masculinos. “Por que meu impulso é escrever sobre homens?”, pensou.

A resposta veio quando notou que a maior parte dos livros, filmes e séries que consome desde a infância são protagonizados por homens. E desta reflexão surgiu o prêmio Cabíria, idealizado por ela para valorizar roteiros centrados em mulheres.

O projeto, ainda em fase de desenvolvimento, prevê um prêmio de R$ 10 mil, levantado por uma campanha de crowdfunding que deve ser lançada em setembro. Homens e mulheres podem concorrer, desde que sejam maiores de 18 anos e apresentem roteiros originais de longa-metragem protagonizados por personagem feminina. A ideia é que o Cabíria funcione como um “selo de qualidade”, ajudando o roteiro a conseguir financiamento para chegar às telas.

Nascida em São Carlos (SP), Nogueira cresceu em Minas. Trabalhou por dois anos como coordenadora de produção na Taiga Filmes e ajudou a cineasta Lucia Murat na pesquisa de roteiro do filme “A Memória que Me Contam”. Teve dois roteiros contemplados no edital Filme em Minas e ainda este ano deve rodar o curta “Angela”.

Mulher no Cinema falou com ela para saber mais sobre o Cabíria:

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Por que criar um prêmio como o Cabíria?
Antes de imaginar que faria cinema, já gostava de escrever, inventar histórias. Mas uma coisa estranha me acontecia toda vez que surgia uma ideia para um novo roteiro ou conto: os personagens principais eram quase sempre do sexo masculino. Dois dos meus três curtas produzidos e meu primeiro roteiro de longa tem protagonistas masculinos! Por que meu impulso é escrever sobre homens ou ter um narrador do sexo masculino em minhas histórias? Bom, a maior parte dos livros, filmes, desenhos animados, séries que consumo desde criança são protagonizados por homens…deve ter uma relação. Faltam personagens femininos fortes com quem meninas e mulheres possam se identificar na literatura e nas narrativas audiovisuais. Criar um prêmio de roteiro como esse poderia ajudar a dar visibilidade a histórias protagonizadas por mulheres.

Quais os efeitos de um cinema tão dominado por personagens masculinos, sobretudo protagonistas?
Não sou uma feminista acadêmica, não tenho conhecimento teórico do assunto e com certeza dou várias gafes. Mas sei o que sinto, o que observo, o que já passei e ainda passo. É bem mais difícil para uma menina ter grandes ambições se praticamente todo o conteúdo narrativo que consome retrata mulheres em papéis secundários, quase sempre como um acessório para alguma grande realização de um homem ou como simples elemento decorativo. Para que existam mais mulheres diretoras de cinema, roteiristas, cientistas, líderes políticas etc, é preciso permitir que meninas possam se ver nesses lugares, sonhar em ocupar esses lugares.

O prêmio é aberto a homens e mulheres roteiristas. Na sua opinião, escrever bons papéis femininos é algo igualmente possível para os dois sexos ou é preciso ter a experiência de ser mulher?
Com certeza homens e mulheres tem a mesma capacidade. Um roteirista, escritor, dramaturgo vai normalmente pesquisar um assunto que não domine antes de começar a escrever sobre ele. Escrevi uma peça há pouco tempo com uma personagem transexual –  o que eu poderia saber sobre nascer mulher com um corpo de homem? Pesquisa, pesquisa, pesquisa. Então para alguns homens a única diferença talvez seja um tempo maior de pesquisa, observação.

“Noites de Cabíria”, de Federico Fellini, inspirou o nome do prêmio para roteiros femininos

Como será a arrecadação e como é possível colaborar?
No momento estou trabalhando nas regras do prêmio e na estruturação de uma campanha de financiamento coletivo. Qualquer um pode colaborar agora divulgando a página Facebook do Cabíria. Em algumas semanas começaremos também a receber doações através de uma plataforma de crowdfunding.

Já é possível cadastrar roteiros para concorrer ao prêmio?
Ainda não. Minha previsão é de que as inscrições comecem a partir de setembro ou outubro – isso imaginando que a campanha de financiamento coletivo será um sucesso, claro. Dá tempo de finalizar um roteiro inacabado ou de dar um novo tratamento naquele roteiro antigo esquecido na gaveta.

A iniciativa é apenas sua ou há uma equipe?
Poderia dizer que estou sozinha, mas tenho tido tanto apoio de amigos – e agora até de desconhecidos – que é como se não estivesse. Entre os maiores colaboradores dos primórdios dessa ideia estão a roteirista Flavia Neves e o diretor Jeffe Pinheiro, com quem estou formando um coletivo de escrita audiovisual. Leo Garcia, do FRAPA [Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre], e o roteirista David França Mendes tem sido outros dois grandes incentivadores.

Você acredita que a discussão sobre a representação feminina no cinema precisa ganhar força no Brasil?
A impressão que tenho é de que essa discussão ainda nem começou no Brasil. Fora o festival Femina, que outras iniciativas existem? Talvez eu esteja mal informada, mas realmente não consigo me lembrar de nenhuma. Ou talvez existam, mas não sejam bem divulgadas? Associações? Não conheço. Pesquisas? Descobri uma que analisa o período de 1961 a 2010: 6,87% dos filmes lançados nesse período no Brasil teriam sido dirigidos por mulheres. Li sobre uma pesquisa nos EUA há pouco tempo indicando que menos de 2% dos blockbusters lançados esse ano foram dirigidos por mulheres. No cinema independente essa porcentagem é bem maior mas não chega a 30%. Seria ótimo ter esses dados atualizados daqui do Brasil e que essa fosse uma informação de fácil acesso, bem difundida.

Quais filmes centrados em mulheres estão entre os seus favoritos?
Alguns que lembro agora: “Noites de Cabíria” [filme de Federico Fellini que dá nome ao prêmio], “Fale com Ela” e muitos outros do [Pedro] Almodóvar, “Que Bom Te Ter Tiva”, “À ma soeur”, “Thelma e Louise”, “A Bela da Tarde”, vários do Wood Allen, “As Praias de Agnès”, “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, “Ninfomaníaca”, “Valente”. Com certeza estou esquecendo de vários.

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