Jorane Castro: “Nacionalizar o cinema só pode ser bom”

Quero assistir porque reconheci meu sotaque.” Esta foi uma das reações que a diretora paraense Jorane Castro ouviu em relação ao trailer de seu primeiro longa-metragem, Para Ter Onde Ir. Em cartaz nos cinemas, o road movie foi rodado em uma paisagem raramente mostrada nas telas – a cidade de Belém e parte da Amazônia Atlântica em Salinópolis, no Pará -, tem protagonistas locais e trilha sonora marcada por clássicos regionais e pelo popular tecnobrega.

Crítica: Jorane Castro coloca três mulheres na estrada em Para Ter Onde Ir
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Todos estes elementos foram cuidadosamente pensados pela cineasta. “Filmamos em lugares onde ninguém tinha filmado longas e tudo foi super planejado. Tentávamos reproduzir o estado de espírito das três mulheres na luz, no enquadramento, no espaço, na locação”, contou, em entrevista por telefone ao Mulher no Cinema“Queria que fossem atrizes paraenses e achava legal trabalhar com o tecnobrega, uma música da periferia que representa muito a cultura amazônica.”

Diretora de curtas como Ribeirinhos do Asfalto (2011), a cineasta filmou Para Ter Onde Ir com um orçamento de R$ 1,3 milhão, financiado por editais do Ministério da Cultura e do governo do Pará. O filme acompanha três mulheres muito diferentes – Eva (Lorena Lobato), Melina (Ane Oliveira) e Keithylennye (Keila Gentil) – conforme trocam o cenário urbano pela natureza e são forçadas a confrontar questionamentos amorosos, familiares e profissionais.

As filmagens representaram deslocamentos de até 35 km por dia e a mobilização de uma equipe de cerca de 60 pessoas, sendo 90% delas do Pará. Oferecer um mercado para estes profissionais é uma das razões pelas quais a diretora defende ações governamentais que busquem descentralizar a produção audiovisual. “Se não tem trabalho, a pessoa vai embora ou muda de profissão”, resume. A cineasta defende um modelo que não apenas regionalize a produção, mas também a nacionalize. “Quanto mais espaço você dá para outros lugares filmarem, mais você tem a ganhar.”

Leia os principais trechos da entrevista:

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Este é seu primeiro longa de ficção. Por que quis contar esta história e fazer um road movie?
É um projeto sobre a cumplicidade feminina. Sempre tive muitas amigas e na ficção as protagonistas dos meus filmes costumam ser mulheres. Gosto de trabalhar também com personagens homens, mas na ficção me sinto mais à vontade para colocar questionamentos femininos. Achava, na minha ingenuidade, que road movie era algo fácil de fazer. Pura ilusão, porque assim como as atrizes estão na estrada, você também precisa transportar a equipe inteira [risos] Tinha vontade [de trabalhar neste gênero] porque sempre gostei muito de viajar e percorro a estrada do filme desde criança. É um lugar tradicional de Belém, o nosso balneário, uma estrada que conheço bem e da qual gosto muito. Então há uma referência afetiva e a questão de pensar no lugar da mulher, da cumplicidade feminina, da maternidade.

Como chegou às três atrizes que protagonizam o filme?
Queria que fossem atrizes paraenses, pessoas daqui. A Keila Gentil é cantora, tem experiência de cena e pensei nela para o papel da Keithylennye. Ela estava um pouco insegura, porque não tinha feito cinema, mas se deu super bem. Chegamos à Anne Oliveira por meio de testes, e a Lorena Lobato é uma atriz paraense mais experiente, que poderia trazer um pouco da história dela no cinema, no teatro e na dança. Criou-se uma relação muito bacana entre elas durante a filmagem. As atrizes foram muito parceiras, muito amigas, muito cúmplices – assim como as personagens. Isto me ajudou bastante como realizadora. Era o meu primeiro longa, tinha muita coisa para cuidar e grande insegurança. Acho que o fato de elas serem tão cúmplices e complementares fez que o projeto funcionasse.

A diretora Jorane Castro no set

Como foi filmar uma paisagem que é tão pouco vista no cinema nacional?
Esse aspecto era muito importante para mim, tanto que insisti para que filmássemos no inverno. O filme tem uma luz meio translúcida, difusa, que é a luz do inverno amazônico. Se fosse verão, seriam outras cores. Aquela luz e aqueles lugares são fantásticos. Em um filme de estrada, é preciso trazer a paisagem para o filme. Mas a paisagem não poderia ser só paisagem: tinha que mostrar a relação entre o interior dos personagens com o exterior. Tentávamos reproduzir o estado de espírito das três mulheres na luz, no enquadramento, no espaço e na locação. Filmamos em lugares onde ninguém tinha filmado longas-metragens e tudo foi super planejado. O fotógrafo Beto Martins foi um grande parceiro nesta criação. A gente discutiu, assistiu filmes e pensou muito na função narrativa da fotografia.

Como avalia as ações do governo para descentralizar a produção audiovisual? Qual a importância disso?
Quanto mais espaço você dá para outros lugares filmarem, mais tem a ganhar. E não estou falando do meu filme, mas de outras camadas sociais, de outros lugares. Estou falando do cinema pernambucano, de Café com Canela, dos irmãos [Marcos e Eduardo] Carvalho, do cinema que é feito em Minas Gerais, em Brasília….O cinema brasileiro só tem a ganhar. Você me disse que nunca veio ao Norte, não conhece esta paisagem, então talvez ganhe alguma coisa [assistindo a Para Ter Onde Ir]. As pessoas daqui, por exemplo, veem o trailer e dizem: “Quero assistir porque reconheci meu sotaque, minha fala.” Nacionalizar o cinema é filmar em todos os lugares do Brasil. Como isso pode ser ruim? Só pode ser bom! As ações afirmativas estão previstas por lei e são muito importantes também para fidelizar o profissional. Se não tem trabalho, a pessoa vai embora ou muda de profissão. Para Ter Onde Ir tem 90% de equipe paraense, e muita gente continuou trabalhando, fazendo outros filmes. É importante que exista o mercado local de profissionais, e também no sentido de contar novas historias de todo o Brasil. Não é apenas regionalizar, é nacionalizar. Isto é lindo, é muito bom. É o caminho.

A música é um aspecto importante do filme. Como trabalhou a trilha sonora?
Achava que a música não podia ser uma camada a mais, do tipo “agora vamos trabalhar a emoção tal”. Queria que a música viesse de dentro da imagem: as pessoas passando por uma rua e o som tocando, as atrizes cantando um clássico brega que é referência aqui. Minha ideia era ter o som local. Não havia necessidade de haver outra música porque escutamos muita música paraense. Achava legal trabalhar com o tecnobrega, porque é uma estética que tem a ver com o filme e com a personagem, e porque de fato se escuta muito tecnobrega andando pela cidade. Faz parte da vida, é uma música da periferia que representa muito a cultura amazônica. E acho uma música de qualidade.

Keila Gentil em cena de “Para Ter Onde Ir”, de Jorane Castro

A cena da festa de aparelhagem, na qual a Keila Gentil sobe ao palco para cantar, é de certa forma o clímax do filme. Como chegou a este momento e como foi a filmagem?
É o momento em que ela se liberta, assume suas escolhas, sabe o que quer. A música foi composta para a cena pelo Marcos Maderito e pelo Waldo Squash, da Gang do Eletro. Foi fantástico: expliquei mais ou menos o que queria e em questão de dias estava pronta. A música não existia antes do filme, e só foi cantada durante aquela na cena. O plano que usamos da Keila subindo [ao palco] e se apresentando é sem cortes, e você acha que é uma música do sucesso porque todo mundo está cantando. Mas na verdade a gente rodou tantas vezes que todo mundo ficou sabendo. E porque quando a Keyla sobe no palco, arrasa. Até lamento não ter entrado mais no universo tecnobrega, porque ele tem um lugar cultural. Muita gente tem preconceito ou não gosta, mas tem muita gente que escuta e gosta. A questão do filme não é essa, é colocar a produção cultural no lugar do qual ela vem e mostrar o que ela representa. Aqui, representa muito.

Qual a maior lição que você aprendeu neste seu primeiro longa de ficção?
Acho que perdi o medo, sabe? Espero que sempre exista aquele friozinho na barriga, mas perdi o medo de não dar conta, de não conseguir fazer. A gente fica apreensivo, porque é uma outra linguagem, uma outra dimensão do trabalho [em relação ao curta-metragem]. Foi um desafio em termos profissionais e estava insegura quando fui para o set. Hoje tenho segurança. É claro que desafios sempre existirão, porque qualquer projeto artístico precisa te desafiar. Mas aprendi muito sobre cinema. É um filme bem conceitual, sensorial, e durante horas falei com meus parceiros criativos sobre cinema, sobre o que acreditava e pensava. Foi um processo super prazeroso, de grande aprendizado e do qual saí transformada. Perdi o medo de falhar. Acho que nos próximos filmes terei outra apreensão, mas sei que vamos chegar no fim da estrada.

Você já está trabalhando em outro projeto. O que pode contar sobre ele?
Será um longa 
de ficção que por enquanto se chama Herança e terá uma roteirista de Belém, a Angela Gomes. É a história de um homem de fora da cidade que herda um empreendimento e, quando chega aqui, descobre que é um puteiro. Já começamos a conversar com um grupo de prostitutas – e como você constrói a imagem de uma puta? Ela está na profissão porque quer ou porque é obrigada? É explorada ou independente? No momento em que se fala de empoderamento e da mulher poder fazer o que quer com seu corpo, há uma liberdade, também, dentro desse conceito. Vai ser um projeto desafiador: criar fugindo dos estereótipos e construir um modelo, um pensamento das mulheres prostitutas. Já está aí a nova apreensão: o medo de deslizar para o preconceito, porque estamos condicionados a muitas coisas. Mas estamos definindo perfis de personagens em função da pesquisa. Quero ouvir e ver a realidade.

Que conselho você daria para as mulheres que querem ser diretoras?
Para as mulheres que querem dirigir, diria: dirijam. Se querem escrever, escrevam. Se querem produzir, produzam. Nunca deixem alguém dizer que você não pode, não tem competência, não vai dar conta do recado. Acho que se aprendermos que a gente pode, se tivermos isso no coração e na alma, como necessidade vital, não tem erro, vai dar certo.


Luísa Pécora é jornalista e criadora do Mulher no Cinema.

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