Crítica: Jorane Castro coloca mulheres na estrada em “Para Ter Onde Ir”

Diretora de curtas como Invisíveis Prazeres Cotidianos (2004) e Ribeirinhos do Asfalto (2011), a paraense Jorane Castro estreia no longa de ficção com o road movie Para Ter Onde Ir. A escolha é de certa forma ousada, já que o cinema brasileiro tem exemplares muitos bons do gênero, que vão de Bye Bye Brasil (1979) e Central do Brasil (1998) a O Céu de Suely (2006), Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2009) e Pela Janela, de Caroline Leone, que estreou em janeiro.

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A estrada de Para Ter Onde Ir (que estreia nesta semana em Rio de Janeiro, Niterói, Belém, Manaus, Curitiba, Porto Alegre, Palmas e Goiânia, e no dia 17 em São Paulo) vai da capital paraense à Praia do Atalaia, em Salinas, e por ela viajam três mulheres de estilos tão diferentes que não compreendemos o que exatamente as une. Eva (Lorena Lobato), quem dirige o carro, é movida pela razão e trabalha orientando os navios de grande porte que atracam na barra de Belém; Keithylennye (Keila Gentil) é uma ex-dançarina de tecnomelody que mora na comunidade da Vila da Barca; e Melina (Ane Oliveira) é uma jovem apaixonada pela vida, meio hippie, que sonha em conhecer uma exótica ilha que surge apenas uma vez ao ano.

Cada uma cai na estrada com histórias, objetivos e desejos distintos. E não é perigoso para três mulheres viajarem sozinhas de carro? Nesse caminho, o único perigo que elas de fato encontram é ter de confrontar o passado. “Mas você só sabe falar de homem?”, desabafa Eva durante uma discussão com Melina. “Amor, amor…a gente ama todo mundo”, continua, antes de parar o carro para respirar fundo. Este diálogo surge após quase meia hora de filme, e a narrativa é feita do mistério em torno das motivações das personagens. É muito aos poucos que o espectador ficará sabendo a quem Eva procura, o que aconteceu com o pai da filha de Keithy e qual desilusão Melina tenta superar.

Keila Gentil interpreta uma mãe solteira que larga a vida de artista em ‘Para Ter Onde Ir’

Antes de Para Ter Onde Ir, o título escolhido para o filme era Amores Líquidos, clara referência à obra do filósofo Zygmunt Bauman (1925-2017). É dele o conceito das “relações líquidas” dos tempos atuais, em que um relacionamento amoroso deixa de ter um aspecto de união e passa a ser um acúmulo de experiências, em que laços construídos são facilmente quebrados. Estes questionamentos sobre o legado que deixamos e sobre a obsolescência lembram um pouco a personagem de Isabelle Huppert em O Que Está Por Vir, da diretora francesa Mia Hansen-Løve, que se desloca para uma comunidade de jovens no campo e é levada a uma epifania pela relação com a natureza.

Talvez Jorane Castro tenha decidido modificar o título ao perceber que a cumplicidade das mulheres é o que se sobressai na trama. Mesmo havendo discordância entre elas, uma está ali pela outra. As três vão encarar figuras do passado individualmente e de forma corajosa. E o deslocamento para o meio da natureza, onde a estrada vai dar, é necessário para a reflexão sobre para onde ir a partir daqui. Apenas encarando o problema é que se poderá seguir em frente.

As atuações de Keila Gentil, ex-cantora da Gang do Eletro, e da estreante Ane Oliveira são ótimas e poderiam ter mais espaço (quem sabe num próximo longa?). E ver a ótima Lorena Lobato no elenco imediatamente remete ao seu papel em Bollywood Dream: O Sonho Bollywoodiano (2010), de Beatriz Seigner. Neste filme, também há três mulheres que partem juntas numa jornada – no caso, atrizes em busca de um trabalho na Índia.

Depois de Beatriz Seigner, Caroline Leone e agora Jorane Castro, esperamos que mais road movies estrelados e dirigidos por mulheres brasileiras cheguem ao circuito comercial. Afinal, lugar de mulher também é na estrada.

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Este filme passa no teste de Bechdel-Wallace. Clique para saber mais.“Para Ter Onde Ir”
[EUA, 2015]
Direção: Jorane Castro
Elenco: Lorena Lobato, Keyla Gentil, Ane Oliveira.
Duração: 100 minutos


Letícia Mendes é jornalista e mestranda em estudos sobre as mulheres.

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