Sem a graça do filme original, novo “Mamma Mia” se salva com Cher

Considerando que Mamma Mia! (2008) faturou mais de US$ 600 milhões nas bilheterias, é surpreendente que Hollywood tenha levado dez anos para lançar a sequência, Lá Vamos Nós de Novo!, que estreia nesta quinta-feira (2). O longo intervalo não significou nenhuma grande alteração na fórmula, e o novo longa também tem como base a história de mãe e filha contada pelo musical que inspirou o primeiro filme – e por sua vez inspirado nas canções do grupo Abba.

Aos mais esquecidos, eis um breve resumo: Sophie (Amanda Seyfried) foi criada em uma ilha grega pela mãe de espírito livre, Donna (Meryl Streep), e sem saber a identidade do pai. Prestes a se casar com Sky (Dominic Cooper), ela envia convites aos três homens com quem Donna se relacionou na época em que foi concebida – Sam (Pierce Brosnan), Harry (Colin Firth) e Bill (Stellan Skarsgard) – e acaba considerando-se filha de todos.

Corta para Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo!, quando quem está grávida é a própria Sophie. Em vez do casamento, agora ela prepara a reinauguração do hotel da família, e embora pequenos drama se apresentem aqui e ali, sua função narrativa é uma só: dar deixas periódicas para que o filme abandone o presente e volte a 1979, quando Donna, desta vez interpretada por Lily James, conheceu os três pretendentes e chegou até a Grécia.

Trata-se, portanto, de uma história de origem que lembra um daqueles episódios preguiçosos de Friends em que recordações do passado motivavam uma colagem de flashbacks de temporadas anteriores. Os flashbacks de Lá Vamos Nós de Novo! são inéditos, mas a sensação de já conheço essa história é a mesma, pois tudo o que aconteceu na juventude de Donna (incluindo os relacionamentos com os três pais de Sophie) já foi contado no primeiro filme.

Imagem do filme “Mamma Mia: Lá Vamos Nós de Novo”

Substituindo Phyllida Lloyd na direção, Ol Parker desenvolveu a história do longa em parceria com Catherine Johnson, criadora do musical e roteirista do primeiro filme, e Richard Curtis, o rei das comédias românticas britânicas. O trabalho não era dos mais fáceis: tirar da cartola uma segunda história inspirada nas músicas do Abba, e sem repetir (muitos) dos hits já utilizados. Pensando assim, a opção pelo flashback e pela renovação do elenco é até bastante lógica. Mas como resultado, o que domina em Lá Vamos Nós de Novo são as tramas jovens, de longe a parte menos interessante e divertida do original.

Lily James é talentosa e carismática, mas não consegue compensar o golpe causado pela quase total ausência de Meryl Streep em cena. Afinal, um dos principais apelos do primeiro longa era a oportunidade de ver uma das atrizes mais respeitadas do cinema americano ter, digamos, the time of her life. A diversão de Streep era contagiante porque ela parecia entender que Mamma Mia! não é um musical qualquer mas, sim, um musical inspirado em Abba. Isto significa dizer que quanto mais colorido, exagerado e – por que não? – ridículo o filme for, melhor. Vozes afinadas ou coreografias elaboradas importam menos do que escolher Pierce Brosnan para cantar “S.O.S.” – com todas as forças como no primeiro filme, e não na versão comedida e acompanhada de um piano triste como agora.

Por sorte, o final de Lá Vamos Nós de Novo reserva uma carta na manga: Cher. No papel da avó de Sophie, ela é não apenas uma escalação genial como a única escalação possível. E embora o material promocional do filme já tenha revelado qual música do Abba foi reservada para a artista, minha recomendação é que façam como eu e evitem saber. O build-up para o número musical é um dos momentos mais forçados, aleatórios e engraçados de toda a franquia – logo, um dos melhores.

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Este filme passa no teste de Bechdel-Wallace. Clique para saber mais.“Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo!”
[Mamma Mia! Here We Go Again, Reino Unido/EUA, 2018]
Direção: Ol Parker
Elenco: Lily James, Amanda Seyfried, Meryl Streep
Duração: 114 minutos.


Luísa Pécora é jornalista, criadora e editora do Mulher no Cinema.

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