Anna Jadowska sobre ‘Rosas Selvagens’: ‘Queria criar personagem complexa e real’

“Estamos em um momento de mudança. A sociedade está profundamente dividida, as mulheres estão sob enorme pressão e não sabemos o que vai acontecer”. Esta declaração poderia ser sobre o Brasil atual, mas na verdade foi feita há um ano pela diretora e roteirista polonesa Anna Jadowska, ao receber um prêmio no Festival de Cinema de Estocolmo por seu filme mais recente, Rosas Selvagens.

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Exibido na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o longa realizado e estrelado por mulheres parece particularmente relevante diante do novo contexto político polonês (e brasileiro), ainda que tenha começado a ser desenvolvido por Jadowska seis anos atrás, e portanto antes de o partido conservador Lei e Justiça ter assumido o poder, em 2015.

“A situação era completamente diferente. Éramos uma sociedade aberta”, contou a diretora, em entrevista ao Mulher no Cinema durante sua passagem por São Paulo. “Agora, temos um governo de extrema direita, focado em ‘valores familiares’. O aborto é ilegal e mulheres foram às ruas por seus direitos.”

Rosas Selvagens conta a história de Ewa (a ótima Marta Nieradkiewicz), uma mulher de 30 e poucos anos que volta a seu vilarejo polonês após algum tempo no hospital. De início, o filme não dá explicações sobre o motivo da internação, preferindo mostrar, uma a uma, as dificuldades enfrentadas por Ewa. Funcionária de uma plantação de rosas selvagens, ela ganha pouco e cuida praticamente sozinha dos dois filhos pequenos enquanto o marido passa longos períodos trabalhando no exterior. Em uma destas ausências, Ewa se envolveu com um adolescente, e boatos sobre os dois não param de circular.

Não é preciso entregar muito mais sobre a história para deixar claro que a protagonista de Rosas Selvagens passa longe do estereótipo da mãe ou da mulher perfeita. “Meu primeiro objetivo era criar uma personagem complexa”, contou Jadowska. “Odeio personagens femininas ‘preto no branco’. Tentei mostrá-la de diferentes perspectivas e em pequenas situações, para construir uma pessoa real.”

Embora Rosas Selvagens não seja um filme autobiográfico, ele certamente carrega elementos da vida da diretora – a começar pelo cenário. Criada em um vilarejo no qual havia uma plantação de rosas selvagens, Jadowska há tempos buscava filmar neste tipo de paisagem. O tema da maternidade veio de sua própria experiência como mãe, já que dera à luz pouco antes de começar a escrever o roteiro, e há muito de sua infância na personagem de Marysia, a filha de Ewa, interpretada pela talentosa estreante Natalia Bartnik.

“Eu era uma menina brava e muito crítica em relação a meus pais”, contou a diretora. A personagem infantil provoca diversos questionamentos sobre religião e liberdade, e algumas das melhores cenas mostram seu incômodo com a primeira comunhão, algo vivido por Jadowska. “Me senti abusada naquela cerimônia, e especialmente na primeira confissão, quando você tem sete anos e precisa contar seus pecados a um homem estranho”, relembrou a cineasta. “Sentia que alguém estava sempre me observando, e este foi um ponto de virada na minha vida religiosa.”

Natalia Bartnik e Marta Nieradkiewicz em cena de “Rosas Selvagens”

Jadowska contou que muitos festivais poloneses não selecionaram Rosas Selvagens, e especulou sobre a possibilidade de isso estar relacionado ao fato de a protagonista não ser “simpática” o bastante. “Não é o tipo de filme do qual você sai falando ‘ok, foi bom’, ‘história bacana’, ‘aventuras legais’. Você tem de lidar de alguma forma com aquela narrativa e aquela personagem, e não é tão fácil se abrir para filmes assim.”

Segundo Jadowska, o tipo de protagonismo feminino que ela buscou desenvolver também é um obstáculo na hora de conseguir financiamento. “As comissões são formadas apenas por homens, e eles realmente não conseguem entender o que está acontecendo, o motivo de ela estar andando com cara triste”, contou.

Apesar disso, e do avanço do conservadorismo nos últimos anos, a diretora se mantém otimista sobre o futuro da Polônia. “É um momento crítico e as coisas podem mudar para a pior”, afirmou, “mas ainda tenho esperança de que exista uma luz no fim do túnel.”


Luísa Pécora é jornalista, criadora e editora do Mulher no Cinema

Foto: Claudio Pedroso/Agênciafoto

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