Ana Katz sobre “Minha Amiga do Parque”: “Maternidade pode se ligar à aventura”

“Uma comédia preocupante”. É assim que o material promocional define Minha Amiga do Parque, ótimo longa-metragem da diretora, roteirista e atriz argentina Ana Katz que estreia nesta quinta-feira (22) nos cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro e Niterói. A definição curiosa dá uma boa ideia do que o espectador pode esperar: um filme que combina momentos cômicos, dramáticos e de suspense para narrar o encontro de duas mulheres de universos diferentes.

“Meu humor é sempre de situação, criado de forma a te trazer perguntas e identificação”, afirmou Katz, em entrevista por telefone ao Mulher no Cinema. “Você ri não só porque é engraçado, mas porque se reconhece.”

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De fato, é provável que muitas mães se reconheçam na personagem de Liz, interpretada pela talentosa Julieta Zylberberg, de Relatos Selvagens (2014). Enquanto o marido viaja a trabalho, ela cuida sozinha do filho pequeno, vivendo momentos de profunda alegria, mas também se sentindo sobrecarregada pela nova realidade e as expectativas da maternidade. Durante um rotineiro passeio no parque ela conhece Rosa (papel de Katz), e a rápida e intensa amizade que se forma entre as duas é tanto um alívio quanto fonte de desconfiança.

O roteiro de Katz, escrito em parceria com Inés Bortagaray, entrega apenas o suficiente para que o espectador, assim como a protagonista, questione se as suspeitas em relação à Rosa são justas ou decorrem da diferença social entre as personagens. “Meu desejo era repensar este sistema capitalista que o tempo todo nos obriga a ocupar um lugar com o qual nem sempre nos identificamos. Liz tem a possibilidade de se encontrar com pessoas que vivem de maneira diferente da dela, e que resultam em uma aventura maior”, afirma Katz. “Muitas vezes as palavras ‘maternidade’ e ‘aventura’ são colocadas como opostas, mas acho atraente pensar que podem estar mais ligadas.”

Julieta Zylberberg em cena de “Minha Amiga do Parque”

Ganhador do prêmio de roteiro de filme estrangeiro em Sundance, Minha Amiga do Parque é o quarto longa de Katz como diretora, após El Juego de la Silla (2002), Una Novia Errante (2007) e Los Marziano (2011). É, também, o primeiro lançamento da Descoloniza Filmes, distribuidora brasileira que terá como foco obras realizadas por diretoras, produzidas em países periféricos e com temáticas que contribuam para a reflexão que a empresa propõe no próprio nome.

Na entrevista ao Mulher no Cinema, Katz manifestou “todo o seu apoio” à proposta da Descoloniza e declarou ter relação de “sentimento e proximidade” com o Brasil. Seu próximo filme, Sueño Florianópolis, foi rodado na cidade catarinense com Andréa Beltrão e Marco Ricca, e uma retrospectiva de seu trabalho deve chegar este ano a Curitiba, depois de passar pelo Rio. “Fico muito feliz e agradecida a cada vez que meus trabalhos podem passar por aí.”

Leia os principais trechos da conversa:

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Por que você quis contar a história de Minha Amiga do Parque?
O projeto partiu da minha própria experiência como mãe. Tenho dois filhos, Helena e Raimundo, e sempre passeava com eles no parque. Num dia de semana, ao meio-dia, só estão nos parques as pessoas mais velhas, aposentadas, e as mães com seus bebês. Muitas vezes nos olhávamos com olhares cúmplices. Via outras mães brincando com as crianças e começava a nascer, em mim, a vontade de me aproximar e perguntar se elas ainda estava amamentando, por exemplo. Muitas vezes eu logo tratava de me conter. Mas havia momentos em que me aproximava e acabava tendo conversas super sinceras. Isso me mostrou como há uma necessidade de se formar alianças. As pessoas me perguntam porque me preocupei em falar de um tema tão particular quanto a maternidade e as relações de mulheres na maternidade. Respondo que o tema é tão velho quanto o mundo. De novo, não tem nada. O que acontece é que não se falava disso.

Da pressão para as mães serem perfeitas, por exemplo?
Exatamente. Ser mãe traz amor e felicidade mas também vem com dor e perguntas. Este, sem dúvida, era um dos temas que mais me interessava trabalhar.

O filme também aborda diferenças de classe, e muitas vezes o expectador não sabe se tem razão em desconfiar de Rosa ou se a está observando a partir de uma perspectiva social e economicamente favorecida. Por que você considerava importante inserir esse componente de classe à história?
Este tema é central para mim. A amizade entre mulheres sempre me pareceu super importante. A possibilidade de encontrar-se com mulheres diferentes e se aliar a elas…esta aliança pode dar muito poder. Às vezes a tendência é que cada mulher fique em sua casa com seus filhos e não falem tanto entre si. Porque se conversam, tornam-se conscientes, comparam, se iluminam. Liz está adaptada a um sistema burguês que pede que as mães façam determinadas coisas, e tem à disposição a ajuda de uma babá. No entanto, a babá não lhe parece uma opção atraente. Ela tem, também, a possibilidade de se encontrar com outras pessoas, que vivem de maneira diferente, e que resultam em uma aventura maior. Muitas vezes as palavras “maternidade” e “aventura” são colocadas como opostas, mas acho atraente pensar que maternidade e aventura podem estar mais ligadas. Rosa tem valores que não funcionam, ou não ocorrem, na classe média progressista. Meu desejo era fazer perguntas, repensar este sistema capitalista que o tempo todo nos obriga a ocupar um lugar com o qual nem sempre nos identificamos. Penso que, às vezes, as pessoas com menos recursos estão mais acostumadas a resolver as coisas de formas que não custem dinheiro. A solidariedade pode correr de outra maneira em outras formas de organização.

Julieta Zylberberg e Ana Katz como Liz e Rosa em “Minha Amiga do Parque”

A divulgação chama o filme de “uma comédia preocupante”, mas para mim o filme ficou mais próximo ao suspense em diversos momentos. Foi sua intenção mesclar gêneros ou isso ocorreu naturalmente?
Nunca tenho intenção de gênero quando escrevo. Os produtores sempre têm dificuldade de rotular meus filmes na hora de criar o pôster ou a divulgação, e “uma comédia preocupante” ajuda as pessoas a saber mais. Concordo que há suspense, assim como há comédia e há drama. Isso tem a ver com o que a vida é para mim. No meu ponto de vista, as situações sempre misturam tudo isso, e quando filmo esta forma de ver as coisas também aparece. Meu humor é sempre de situação, criado de forma a trazer perguntas e identificação. Você ri não só porque é engraçado, mas porque se reconhece.

Por que você dedicou o filme ao seu pai?
Meu pai morreu durante o processo do filme, daí a dedicatória. Ele me ensinou a dirigir e sempre confiou muito na minha capacidade de pensar e agir. Minha mãe também, mas falo sobre meu pai porque muitas vezes os pais esperam uma senhorita que fique em casa. Tive o apoio incondicional do meu pai para fazer o que faço, e por isso dediquei o filme a ele.

No Brasil, as discussões sobre a mulher no cinema têm ganhado força. O mesmo ocorre na Argentina?
Sim. Há muita discussão e muito debate. Acho que há mais debate do que ação, mas ele é muito bem-vindo.

Tem se discutido também sobre o assédio?
Sim. E penso que o poder das mulheres está na aliança e na liberdade. A liberdade é o maior feminismo para mim. Claro, primeiro é preciso nos cuidarmos para não sermos vítimas. Mas depois é importante buscar as ferramentas para se ter liberdade. Se não, a mulher fica o tempo todo com medo em sua casa. Isto também não nos ajuda.

Ana Katz e o elenco de “Minha Amiga do Parque” no set

Você começou a dirigir aos 24 anos. Como foi sua experiência? Enfrentou muitas dificuldades?
Eu tenho uma coisa que…eu avanço. Vou me dando conta dos obstáculos, mas não me detenho muito. Tive consciência de atitudes machistas que aconteceram a medida que fui crescendo [na profissão], mas nunca parei para observá-las. E voltando a falar sobre aprender a dirigir, uma das primeiras coisas que meu pai me ensinou foi [o que fazer se] estivesse na rua e me deparasse com alguma prepotência – que muitas vezes têm a ver com outras formas de dirigir, masculinas. Ele disse: “Olhe, sorria e siga” [risos]. E faço um pouco isso [no cinema].

Entre os vários trabalhos que você faz – escrever, atuar, dirigir, produzir -, algum é o seu favorito?
Amo, amo, amo a mistura, a combinação. Atuar me dá uma felicidade muito grande, que é sumir e participar da viagem de outra pessoa. É um descanso, um alívio e uma festa para a minha imaginação, que pode viver a imaginação de outra pessoa. Já escrever é uma maneira sincera de me conectar com meu mundo mais interior.

Que conselho você daria para as mulheres que querem ser diretoras?
Meu principal conselho é trabalhar no que for preciso para aprender, sempre. E concretizar o que elas desejam, porque o desejo é uma ferramenta muito poderosa.


Veja o trailer de Minha Amiga do Parque:


Luísa Pécora é jornalista, criadora e editora do Mulher no Cinema.

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