7 perguntas para Fanshen Cox DiGiovanni, cocriadora do “inclusion rider”

Ninguém se surpreendeu quando, na última cerimônia do Oscar, a favorita Frances McDormand subiu ao palco para receber o prêmio de melhor atriz. Mas as duas últimas palavras de seu discurso criaram muita surpresa: o que era inclusion rider?

Entenda: O que é inclusion rider, o termo usado por Frances McDormand no Oscar?
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A internet ajudou espectadores, jornalistas e artistas a descobri que inclusion rider, ou “cláusula de inclusão”, é um termo que estrelas de cinema podem colocar em seus contratos para exigir que a equipe de um filme atinja determinado nível de diversidade. Em outras palavras, atrizes e atores com grande poder de negociação condicionam sua participação em um projeto à inclusão de mais indivíduos de grupos pouco representados na equipe e/ou elenco.

Mas como um termo tão pouco conhecido foi parar no palco do Oscar? Esta foi a primeira pergunta que a reportagem do Mulher no Cinema fez à atriz, produtora e dramaturga Fanshen Cox DiGiovanni, uma das criadoras do inclusion rider, durante passagem por São Paulo (SP) para o Seminário Internacional Mulheres no Audiovisual, promovido pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). A americana integra o conselho da Annenberg Inclusion Initiative, importante fonte de pesquisa e educação sobre a participação feminina no cinema, e ajudou a formular o inclusion rider ao lado da advogada Kalpana Kotagal e da pesquisadora Stacy Smith, a idealizadora do termo.

“Estávamos falando muito sobre isso em Hollywood e a voz de Stacy era a que soava mais alto”, contou DiGiovanni durante a entrevista ao Mulher no Cinema. “Menos de uma semana antes do Oscar, ela se encontrou com a agente de Frances McDormand, que falou: ‘Não sei se ela poderá dizer algo, mas se ela puder, o que você gostaria que ela dissesse?’ E Stacy respondeu: ‘Diga a ela para falar inclusion rider.'”

E então, simples assim, um projeto de anos chegou ao palco do maior prêmio da indústria cinematográfico, para a surpresa das próprias autoras. “Nenhuma de nós sabia que de fato isso ia acontecer”, contou DiGiovanni, que disse ter pulado em frente à televisão. “Não tínhamos ideia, foi incrível.”

A resposta de Hollywood foi rápida, e artistas como Michael B. Jordan, Brie Larson e Paul Feig prometeram adotar a medida. O mesmo ocorreu na produtora Pearl Street Films, de Ben Affleck e Matt Damon, na qual DiGiovanni atua como chefe de alcance estratégico e produtora executiva. Mas as críticas também não demoraram a chegar, principalmente na forma de questionamentos quanto à legalidade do inclusion rider e sua real capacidade de mudança.

DiGiovanni responde às críticas com a mesma tranquilidade com a qual aborda questão raciais e de gênero de forma pessoal na performance One Drop of Love, que teve uma versão mostrada no Brasil. Na entrevista a seguir, ela lista os obstáculos do inclusion rider, reflete sobre como manter o assunto em pauta e explica a importância das pesquisas na busca por oportunidades iguais em Hollywood: “Matt e Ben passaram 20 anos nesta indústria. Se tivessem tirado um segundo para realmente olhar ao redor, veriam a desigualdade”, contou. “Mas foram os números que os fez tomar uma atitude.”

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Como o inclusion rider foi parar no discurso de Frances McDormand no Oscar?
Stacy Smith é uma pessoa incrível, que há muito tempo coleta e publica dados [sobre mulher no cinema]. Estávamos falando sobre isso internamente em Hollywood e a voz dela era a que soava mais alto. Ela estava falando com todo mundo. Menos de uma semana antes do Oscar, se encontrou com a agente da Frances McDormand, que falou: “Não sei se ela poderá dizer algo, mas se puder, o que você gostaria que ela dissesse? Stacy respondeu: “Diga a ela para falar inclusion rider.


“Menos de uma semana antes do Oscar, Stacy Smith se encontrou com a agente da Frances McDormand. A agente falou: ‘Não sei se ela poderá dizer algo, mas se puder, o que você gostaria que ela dissesse?’ E a Stacy respondeu: ‘Diga a ela para falar inclusion rider.‘”


E como tem sido a reação à ideia desde então?
Naquela noite e durante cerca de uma semana, a coisa explodiu. Muita gente nos procurou querendo implementar [o inclusion rider] inclusive em outras indústrias, o que foi maravilhoso. Depois recebemos uma resposta negativa principalmente de advogados homens e brancos que disseram se tratar de um sistema de cota, que é algo ilegal nos Estados Unidos. Por isso divulgamos nosso template publicamente e dissemos a todos que não se trata de nenhum segredo. Estamos orgulhosas e confiantes em relação à linguagem legal que usamos. Qualquer pessoa pode usar este template. Está disponível, você pode fazer um download e alterá-lo da forma que precisar.

Tenho acompanhado reportagens um pouco críticas da imprensa americana, que lançam dúvida quanto à aplicação do inclusion rider e destacam que, apesar da empolgação pós-Oscar, ainda não há nenhum exemplo claro de produção que usou esse recurso. Vamos conseguir ver alguns destes exemplos no futuro?
Espero que sim. Certamente poderemos ver os trabalhos nos quais Matt Damon e Ben Affleck estão envolvidos, e eles devem ter uma cara diferente. Meu trabalho na Pearl Street não se resume às mudanças internas, e acabei de fazer a produção executiva de uma websérie escrita, produzida e estrelada por haitiano-americanos. Ela não está recebendo a mesma atenção da imprensa, mas precisamos compartilhar essa narrativa e encorajar as pessoas a saber sobre o assunto. E também precisamos olhar para os filmes que forem lançados com Matt e Ben e questionar os números. Sou muito aberta às críticas porque acredito em evoluir. Nós dissemos à Stacy: “Nos dê um ano, e depois venha avaliar os nossos números novamente”. Se eles não tiverem mudado, o inclusion rider não terá funcionado. [Precisaremos avaliar] quais partes funcionaram e quais não. E aí poderemos mudar de novo.


“Quando levamos o inclusion rider aos estúdios e às produtoras, eles dizem que já estão fazendo esse trabalho. Mas não estão. Quando o filme sair vamos avaliá-lo, vamos falar sobre ele e vamos falar a verdade.
E aí teremos de avançar a partir disso.”


Quais os principais obstáculos que vocês enfrentam ao apresentar o inclusion rider para estúdios e produtoras?
Inicialmente, principalmente antes do Oscar, o maior desafio era as pessoas ignorarem [a questão] ou dizerem que não ia funcionar. Até por isso é muito importante para nós poder mostrar que algo realmente mudou por causa do inclusion rider. Depois do Oscar, o principal desafio tem sido o fato de que, quando levamos a ideia aos estúdios e às produtoras, eles dizem que já estão fazendo esse trabalho. Mas não estão. Vemos o produto, e ele não está refletindo [a sociedade]. Quando o filme sair vamos avaliá-lo, vamos falar sobre ele e vamos falar a verdade. E aí teremos de avançar a partir disso.

Seja no caso do inclusion rider como em relação a iniciativas recentes como o Time’s Up ou o #OscarsSoWhite, muitas discussões relevantes ganham destaque por causa do Oscar. Mas como manter estas questões em pauta durante todo o ano, e não apenas na época da premiação?
Acho que temos de apontar para os sucessos, e nesse caso a Academia é o exemplo perfeito. No primeiro ano do #OscarsSoWhite, a Academia convidou algumas centenas [de novos membros]. Neste ano, convidou mais de 900. Isso é algo enorme. Devemos dar parabéns a nós mesmos e ficar felizes com o fato de que fizemos progresso. Mas se nos próximos anos os indicados continuarem sendo majoritariamente brancos e homens, precisaremos avaliar de que forma isso não funcionou. Algumas respostas estão na educação: precisamos olhar para as escolas de cinema. Gostei de uma pergunta feita aqui no seminário, sobre como é diferente falar sobre as cineastas de Rio de Janeiro e São Paulo e sobre as de áreas rurais, do Norte e do Nordeste do Brasil. Isso também é verdade nos Estados Unidos no sentido de que estamos muito focados naquelas pessoas que já são visíveis ou já têm voz. E aquelas que não têm? Então acho que podemos nos dar um tapinha nas costas e nos dar parabéns pelo trabalho que foi feito. Ao mesmo tempo, não podemos descansar nunca.


“Matt Damon e Ben Affleck passaram 20 anos nesta indústria, em sets, reuniões, projetos. Se tivessem tirado um segundo para realmente olhar ao redor, veriam [a desigualdade]. Mas isto é o que nós fazemos. É o que as mulheres e pessoas não brancas fazem. [É pensar:] “Estou seguro aqui?”. Eles não precisavam fazer isso. Foram os números que mudaram a cabeça deles e os fez tomar uma atitude. Os números funcionam.”


Você é membro do conselho da Annenberg Inclusion Initiative, uma grande fonte de pesquisas sobre a participação da mulher no cinema. Por que a coleta de dados sobre o assunto é algo tão importante?
É certamente muito importante, principalmente nos Estados Unidos de hoje, conforme lutamos contra acusações de fake news. Como jornalista, você sabe o quanto é frustrante apresentar fatos e ouvir alguém dizer que aquilo não é verdade. Acredito que ter estes números é [fundamental] para contar a verdade, a história não dominante. Os números são algo que não se pode negar. Talvez alguém não esteja focado [neste tema], mas uma vez que vê os números, não há como negar. Vi isso acontecer diretamente com Matt e Ben e o modo como eles responderam [às pesquisas]. Eles passaram 20 anos nesta indústria, trabalhando no set, participando de reuniões, se envolvendo em projetos. Se eles tivessem tirado um segundo para realmente olhar ao redor, veriam [a desigualdade de gênero e racial]. Mas isto é o que nós fazemos. É o que as mulheres fazem, é o que as pessoas não brancas fazem. [É pensar:] “Estou seguro aqui?”. Eles não precisavam fazer isso. Foram os números que mudaram a cabeça deles e os fez tomar uma atitude. Então os números funcionam.

Que conselho você daria para as mulheres que querem trabalhar no cinema?
Usem o estúdio que está em seu bolso – seu telefone – para aprender. Assistam aos trabalhos das pessoas que vocês amam e imitem suas tomadas. Quando um filme ou série as fizer rir ou chorar, parem e perguntem a si mesmas: o que me fez rir? O que me fez chorar? Analisem. Não é preciso pagar por curso de cinema: vocês têm todas as ferramentas. Tirem o celular do bolso e comecem a filmar. Criem uma conta no YouTube ou no Vimeo, distribuam seus vídeos e vejam como as pessoas respondem, pois isso vai dizer no que ainda precisam melhorar. Aquilo comoveu as pessoas? Elas sentiram vontade de compartilhar? O que elas disseram nos comentários? Tenho um canal no YouTube a única pessoa que assiste é a minha mãe [risos]. Mas tudo bem, porque estou fazendo um trabalho muito pessoal. E enquanto minha mãe estiver gostando, está tudo bem. Porque estou aprendendo a cada vez. Temos acesso à distribuição em larga escala? Não, e é para isso que todas nós estamos trabalhando. Mas enquanto isso, há muita coisa que podemos fazer sem ter de esperar por mais ninguém.


Luísa Pécora é jornalista, criadora e editora do Mulher no Cinema.

Foto: Craig F. Walker/Boston Globe

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