Olivia de Havilland: os 100 anos da atriz que venceu os estúdios

Em 1962, quando publicou seu livro de memórias, a atriz Olivia de Havilland deu o seguinte título ao texto de abertura: “Não tenho certeza se você sabe que estou viva.”

De fato, muita gente não sabe.  Afinal, na década de 1950 De Havilland trocou Hollywood pela França, e nos anos 1980 abandonou de vez a indústria do entretenimento (seu último trabalho foi o telefilme The Woman He Love).

Mas nesta sexta-feira (1º) o mundo se lembrará não apenas de que De Havilland está viva, como de que está completando 100 anos.

Olivia de Havilland em 2015, em fotos tiradas de Andy Gotts para a "Entertainment Weekly"
Olivia de Havilland em 2015, em fotos tiradas de Andy Gotts para a “Entertainment Weekly”

O centenário é a ocasião perfeita para celebrar a carreira de uma atriz que teve papéis marcantes (sobretudo Melanie Hamilton em E o Vento Levou) e também impactou gerações ao ajudar a acabar com o chamado studio system, o período no qual os estúdios tinham controle quase total sobre a carreira dos artistas.

Mas vamos por partes. Filha de pais britânicos, De Havilland nasceu em Tóquio em 1916 e mudou-se ainda criança para a Califórnia, nos Estados Unidos. Sua irmã mais nova também se tornou atriz, usando o nome artístico de Joan Fontaine – e a notória rivalidade das duas durou até a morte de Fontaine, em 2013.

Olivia de Havilland e Errol Flynn em "As Aventuras de Robin Hood" (1938)
Olivia de Havilland e Errol Flynn em “As Aventuras de Robin Hood” (1938)

Descoberta em uma peça de teatro, aos 18 anos elas assinou um contrato com a Warner Bros. e em 1935 estreou no cinema, com Sonho de Uma Noite de Verão. Durante os sete anos de contrato com o estúdio, De Havilland fez uma série de filmes com o ator Errol Flynn, incluindo A Carga de Cavalaria Ligeira (1936) e As Aventuras de Robin Hood (1938). O sucesso destes longas, porém, não asseguraram melhores oportunidades para a atriz, que foi suspensa várias vezes pela Warner por recusar trabalhos.

“Queria interpretar papéis complexos, mas Jack Warner [então dono do estúdio] me via como a mocinha. Estava realmente ansiosa para interpretar seres humanos mais desenvolvidos. Jack nunca entendeu isso e me dava personagens que não tinham caráter ou qualidade nenhuma.”

Quando era “emprestada” a outros estúdios, porém, a atriz se sentia mais realizada. Foi o caso de E o Vento Levou…, no qual interpretou a cunhada de Scarlett O’Hara – um contraponto delicado para o furacão da protagonista. O filme rendeu a De Havilland uma indicação ao Oscar, que ela perdeu para Hattie McDaniel, sua colega de elenco e a primeira negra a ganhar a estatueta.

Hattie McDaniel, Olivia de Havilland e Vivien Leigh em "E o Vento Levou"
Hattie McDaniel, Olivia de Havilland e Vivien Leigh em “E o Vento Levou”

A segunda indicação ao Oscar veio por outro trabalho que conseguiu graças ao empréstimo entre estúdios: A Porta de Ouro (1941). Em seu primeiro papel principal, De Havilland perdeu o prêmio para a irmã, que concorria por Suspeita (1941).

Quando o contrato com a Warner finalmente expirou, a atriz estava pronta para mudar de ares, mas o estúdio afirmou que ela devia seis meses de trabalho pelo tempo que havia sido suspensa. De Havilland, por sua vez, argumentou que o contrato se referia a sete anos corridos, e não apenas aos dias em que ela tinha de fato trabalhado. Em 1944, a justiça ficou do lado da atriz, numa decisão legal que está entre as mais importantes da história de Hollywood. A vitória aumentou o poder dos artistas quanto a suas próprias carreiras e representou um forte golpe para o studio system, que não resistiu a outras decisões legais, ao fortalecimento dos sindicatos e, finalmente, ao surgimento da televisão.

De Havilland ganhou o respeito dos colegas, continuou trabalhando e, nos anos seguintes, tornou-se uma das poucas mulheres ganhadoras de dois Oscar de melhor atriz – por Só Resta Uma Lágrima (1946) e Tarde Demais (1949).

Agora centenária, a atriz continua vivendo na França é a única integrante viva do elenco de E o Vento Levou. Feliz 100 anos!

Olivia de Havilland em 1947, recebendo o Oscar por "Só Resta Uma Lágrima"
Olivia de Havilland em 1947, recebendo o Oscar por “Só Resta Uma Lágrima”

* Com informações da Variety e do San Francisco Chronicle

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