As vitórias mais marcantes para as mulheres no Oscar 2020

Qual o saldo do Oscar 2020 para as mulheres? Em um ano com recorde de profissionais indicadas (cerca de 30%), a Academia de Artes e Ciências Cinematográfica reconheceu o trabalho de 13 profissionais – duas a menos do que em 2019, mas sete a mais do que em 2018.

Oscar 2020: Veja a lista completa com todas as mulheres premiadas
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De certa forma, as maiores decepções já tinham acontecido no dia das indicações, quando as mulheres ficaram de fora da disputa por alguns dos principais prêmios (incluindo direção e direção de fotografia) e só Adoráveis Mulheres foi lembrado na categoria de melhor filme. Além disso, o fato de Cynthia Erivo ser a única pessoa negra indicada aos prêmios de atuação, e uma das poucas mulheres não brancas indicadas em qualquer categoria, ressaltou como o caminho em direção à igualdade ainda é longo.

Durante a cerimônia, realizada neste domingo (9) em Los Angeles, o Oscar fez o que tem feito nos últimos anos: escalou uma enorme quantidade de mulheres e minorias como apresentadores e fez várias menções à desigualdade de gênero e raça em Hollywood e na própria premiação. A histórica consagração de Parasita ofereceu alguma (leve) esperança de que a diversidade esteja também entre os premiados, e não apenas entre os apresentadores. Mas, em geral, os “momentos inclusão” do Oscar se parecem com alguns dos filmes “empoderadores” que Hollywood tem produzido: atendem às demandas contemporâneas oferecendo mudanças cosméticas, sem necessariamente se comprometer com mudança estrutural. 

Um exemplo é a reunião de Brie Larson, Gal Gadot e Sigourney Weaver para apresentar Eímear Noone, a primeira mulher a reger uma orquestra em 92 anos de Oscar (e durante uma música, vale ressaltar). A escolha foi simpática, mas terminou com Weaver dizendo que “todas as mulheres são superheroínas”, uma frase banal e vazia em significado. No Twitter, a jornalista Margaret Lyons definiu muito bem: “Não preciso que as mulheres sejam reconhecidas como superheroínas. Ficaria contente se fôssemos reconhecidas como seres humanos.”

Em que pese tudo isso, o Oscar 2020 também registrou vitórias importantes. Do já mencionado histórico prêmio para Parasita à presença inegavelmente forte das mulheres na produção e nas duas categorias de documentário, veja alguns dos momentos marcantes da edição deste ano:

Kwak Sin Ae e Miky Lee aceitam o troféu para Parasita
Duas mulheres falaram ao microfone na primeira vez que um filme em língua não inglesa ganhou o principal troféu do Oscar. A produtora de Parasita, Kwak Sin Ae, agradeceu a Academia pela decisão de premiar um longa internacional: “Sinto que um momento histórico muito oportuno está acontecendo agora”, afirmou. Já a produtora executiva Miky Lee (que pôde falar depois de a plateia pedir para o microfone não ser cortado) fez um agradecimento às plateias sul-coreanas: “O público apoia nossos filmes e nunca hesita em nos dar opiniões”, afirmou. “Isso permite que os diretores e criadores sigam inovando.”


Karen Rupert Toliver é premiada por Hair Love
O Oscar 2020 também premiou uma produtora negra: a americana Karen Rupert Toliver, que venceu na categoria de curta de animação com Hair Love. Dirigido por Matthew Cherry, com quem Toliver dividiu a indicação e o prêmio, o filme é centrado em uma família negra e mostra um pai que penteia o cabelo da filha pela primeira vez. “Muita gente trabalhou duramente e com amor, porque tínhamos uma forte crença de que representatividade importa muito”, afirmou Toliver, que é vice-presidente executiva de criação da Sony Pictures Animation. Hair Love pode ser visto online clicando aqui.


Hildur Guðnadóttir ganha o Oscar de trilha sonora
A compositora de Coringa confirmou seu favoritismo e tornou-se a quarta mulher na história a vencer na categoria. O prêmio foi importante principalmente considerando os obstáculos que as mulheres enfrentam na área: de acordo com a San Diego State University, elas representaram apenas 6% dos compositores dos 250 filmes de maior bilheteria nos Estados Unidos em 2019. Em seu discurso, ela disse: “Às meninas, às mulheres, às mães, às filhas que escutam música dentro de si, por favor, falem alto. Precisamos ouvir a voz de vocês.”


Mulheres dominam nas categorias de documentário
Apenas dois filmes dirigidos por mulheres foram premiados no Oscar (não considerando categorias que reconhecem indivíduos) e ambos eram documentários, gênero no qual a presença das mulheres costuma ser maior (e não por acaso, onde os orçamentos costumam ser menores). Neste ano, tanto na categoria de longa quanto na de curta documental, quatro dos cinco indicados tinham direção ou codireção de mulheres.

Indústria Americana, de Julia Reichert e Steven Bognar, venceu o troféu de longa, também disputado pelo brasileiro Democracia em Vertigem, de Petra Costa. Financiado pela Higher Ground Productions, empresa do casal Barack e Michelle Obama, Indústria Americana era o mais tradicional dos concorrentes. Mas a vitória significou um reconhecimento para Reichert, que em 50 anos de carreira disputou o Oscar outras três vezes – por Union Maids (1976), Seeing Red (1983) e The Last Truck (2009) -, ganhou o prêmio honorário da Associação Internacional de Documentário, e foi cofundadora da New Day Films, empresa criada para fortalecer o movimento feminista nos EUA que há 42 anos distribui filmes para escolas, sindicatos, bibliotecas e outras instituições comunitárias. Em Indústria Americana, ela retrata choques culturais em uma fábrica chinesa que opera em solo americano. “Os trabalhadores passam por dificuldades cada vez maiores, e acreditamos que as coisas vão melhorar quando os trabalhadores do mundo se unirem”, disse Reichert, 73 anos, que foi diagnosticada com câncer terminal e está passando por tratamento de quimioterapia. 

Já o prêmio de curta de documentário foi para Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl), de Carol Dysinger, que dividiu o prêmio com a produtora Elena Andreicheva. O filme acompanha meninas aprendendo a ler, escrever e andar de skate no Afeganistão, país no qual Dysinger também filmou o longa Camp Victory, Afghanistan (2010). Seu discurso talvez tenha sido o melhor da noite: ela começou lembrando que em 1977 ganhou um Oscar estudantil das mãos do diretor Frank Capra e que, na época, pensou que “pularia a parte difícil” e “apenas seguiria fazendo filmes”. “Se não tivesse tido aquele encorajamento bem cedo, não teria conseguido aguentar as últimas quatro décadas nesta indústria”, afirmou. “Trabalho no Afeganistão desde 2015 e este filme é minha carta de amor às corajosas meninas daquele país. Para chegar de Frank Capra até aqui foi preciso muita persistência e muitos professores, o tipo de professora que tento ser no curso de cinema da Universidade de Nova York e o tipo de professores de Skateistan, a escola no coração do filme. Eles ensinam às garotas a ter coragem, a levantar a mão e falar ‘estou aqui, tenho algo a dizer e não tente me impedir'”. 


Luísa Pécora é jornalista e criadora do Mulher no Cinema

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