Teresa Villaverde: “Há cada vez menos tempo, mas é bom ouvir histórias”

Um dos principais nomes do cinema português, Teresa Villaverde teve participação dupla na edição deste ano da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo: foi membro do júri internacional que premiou Las Sandinistas, de Jenny Murray, e apresentou seu novo filme, O Termômetro de Galileu, também selecionado para o Festival do Rio.

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Nono longa-metragem de Teresa como diretora, O Termômetro de Galileu é diferente de tudo o que ela fez até agora. “Trabalhei de um modo como nunca tinha trabalhado”, contou a cineasta, em entrevista ao Mulher no Cinema durante sua passagem por São Paulo. “Fiz tudo sozinha: a câmera, o som, a edição, a produção. Tive liberdade absolutamente total.”

Com este modo de trabalhar, Teresa buscou se aproximar do seu personagem principal: o amigo e cineasta italiano Tonino De Bernardi, diretor de Elettra (1987) e Appassionate (1999), que realizou grande parte de seus filmes com equipes reduzidas e formadas por amigos. O Termômetro de Galileu registra um verão que a diretora e produtora portuguesa passou na região do Piemonte, na Itália, hospedada na casa de Bernardi e de sua mulher, Mariella Navalle.

Sem pretensão de recuperar a obra ou a trajetória do diretor de forma didática, Teresa acompanha o dia a dia do casal, encontros com amigos e a relação com os netos, a quem transmitiram o interesse pela arte. A família de Tonino e Mariella contrasta com a do filme anterior da cineasta, Colo (2017), marcada por conflitos relacionados à crise econômica portuguesa. “Em O Termômetro de Galileu, entendemos que também não há dinheiro, tudo é uma confusão, talvez não haja trabalho no sentido de emprego”, comentou. “Mas há amor, há vontade de criar, há curiosidade pelo mundo, há compreensão. Dá a sensação de que às vezes complicamos as coisas. O que nos abala mortalmente talvez não seja tão grave.”

Na entrevista a seguir, concedida três dias antes do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, Teresa Villaverde fala sobre a situação política do Brasil, os bastidores de O Termômetro de Galileu, o pouco interesse do público português pelo cinema do país e sobre como as discussões sobre igualdade de gênero no cinema ainda mal começaram em Portugal.

Assista a alguns trechos ou leia a entrevista completa:

Conte um pouco sobre o processo de filmagem de O Termômetro de Galileu.
Este filme é muito particular para mim, pois trabalhei de um modo completamente diferente do que tinha trabalhado até então. Fiz tudo sozinha, a equipe era só eu. Fiz a câmera, o som, a edição, a produção. Tive liberdade absolutamente total. Se um dia não tinha vontade de filmar, não filmava. Se acordava e não tinha vontade de trabalhar na edição, não trabalhava. Curiosamente, isso fez com que [o processo] não levasse muito tempo. Talvez as coisas possam avançar mais rápido quando trabalhamos no nosso ritmo particular. Tonino é um cineasta independente, que muitas vezes fez filmes com equipes reduzidas, só de amigos ou ele próprio, sozinho. Foi a forma que ele encontrou de se manter fiel à ideia do que queria fazer. Como fui fazer um filme sobre ele e sua família, penso que a única forma de transmitir alguma coisa sobre o que eles são e a forma como vivem era filmar de um modo parecido com o dele.

Há uma cena em que Tonino pede para você desligar a câmera. Ele ou a Mariella tiveram algum direito de aprovação ou você pôde usar as gravações da forma como quis?
Não, foi confiança total. Depois, quando o filme estava pronto, fui à Itália mostrar a eles, que só ficaram tristes de eu não ter usado algumas coisas. Eles têm muitos netos e havia gravações muito bonitas com eles, mas que não cabiam no filme.

Você filmava sempre que queria ou havia alguma combinação prévia? 
Tinha minha câmera e um microfone, e quanto tinha de vontade de filmar alguma coisa, filmava.

Mas você chegou a pensar previamente sobre algumas sequências que gostaria de filmar? Por exemplo, aquele trecho do filme em que pede que Mariela leia uma história escrita por ela mesma?
Esta foi uma ideia que surgiu durante as filmagens. Algo me dizia que Mariela escrevia, então perguntei e de fato, escrevia. Depois pedi se podia escolher alguma coisa para ler. Ela então leu uma história verdadeira, na qual fala de uma amiga que já não é viva, e conta um pouco sobre como foi o encontro delas. Mariela lê a história na íntegra, o que leva cerca de 15 minutos. Quando editei o filme e o mostrei a amigos, alguns me disseram: “Mas isso não está muito longo? Quinze minutos desta história?” E eu pensei que se nós, como espectadores, não temos 15 minutos da nossa vida para dar, para ouvir uma história verdadeira de uma pessoa sobre sua amiga…se não temos esses 15 minutos, então também não vale a pena fazer o resto do filme. Acho que precisamos voltar a ter esse tempo. E calma: como assim? Já tem de ir embora do cinema? Vai para onde? Vai fazer o quê? Não quer ouvir uma história? Talvez algumas pessoas ainda se lembrem de quando eram crianças e ouviam histórias. Cada vez isso existe menos, porque há cada vez menos tempo, além de haver muita distração com a internet e tudo o mais. Mas é sempre muito bom ouvir uma história. Por que não? E calma, não temos 15 minutos?

Mariella e Tonino em cena do filme “O Termômetro de Galileu”

“Se nós, como espectadores, não temos 15 minutos para ouvir uma história verdadeira de uma pessoa sobre sua amiga, então não vale a pena fazer o resto do filme. Acho que precisamos voltar a ter esse tempo. Talvez algumas pessoas ainda se lembrem de quando eram crianças e ouviam histórias. Cada vez isso existe menos, porque há cada vez menos tempo. Mas é sempre muito bom ouvir uma história. E calma, não temos 15 minutos?


Você já contou histórias de famílias em conflito, como em Colo, e agora foca em uma família harmoniosa como a de Tonino. É algo que parece especialmente raro no momento atual do Brasil, em que as eleições têm provocado inúmeros confrontos familiares. O que fez com que você quisesse focar em uma família feliz desta vez?
Penso que se deve há várias coisas. Conhecia aquela família há muitos anos e sempre a adorei, então tinha vontade de fazer algo com eles. Outra coisa é que em Colo havia uma família com muitos problemas de comunicação e isolamento, o que também tinha um pouco a ver com os problemas que Portugal estava vivendo há alguns anos – crise econômica, desemprego. Para mim, é muito interessante ver, em oposição, a família de O Termômetro de Galileu. Entendemos que também não há dinheiro, que tudo também é uma confusão, que talvez não haja trabalho no sentido de emprego. Mas há amor, há vontade de criar, há curiosidade pelo mundo, há compreensão, há diálogo entre os netos e avós. Dá a sensação de que nós às vezes complicamos um pouco as coisas. O que nos abala mortalmente talvez não seja assim tão grave. Mas estou fazendo uma associação a Colo, e não ao que se passa no Brasil, que é de extrema gravidade.

Como vê este momento político do Brasil?
Há um trecho do filme no qual aparece uma senhora muito mais velha, curvada, que vende queijos. Acho bonita esta parte, porque ela começa a falar da infância e menciona o fascismo em seu tempo de criança. É a marca que o fascismo deixa nas pessoas: a senhora talvez tenha 90 anos, e aquilo ainda não saiu. Em Portugal, estamos acompanhando com muita atenção e preocupação o que vocês estão vivendo agora. Penso que, se acontecer o pior [a eleição de Jair Bolsonaro], será muito, muito grave para o Brasil inteiro e, consequentemente, para o mundo. É muito triste porque sabemos que muitas pessoas vão usar seu voto de forma muito errada, vão votar contra elas próprias e vão se arrepender mais tarde. É triste ver como se está chegando a este ponto, e isso está acontecendo na Europa também: na Itália, na Hungria. Vamos esperar que as pessoas consigam compreender que não há nada mais importante do que a liberdade e o respeito. Isso é a base de tudo. É a partir daí que podemos conversar e ver qual sociedade queremos.


“Há alguns anos, Brasil e Portugal eram dois mundos de costas um para o outro. Começamos a ter mais intercâmbio e estamos criando uma comunidade de língua portuguesa muito bonita.”


Acha que poderia haver mais intercâmbio cultural entre Brasil e Portugal?
Estamos mais distantes do que poderíamos estar, mas a cada ano estamos mais próximos. Há alguns anos eram dois mundos de costas um para o outro, agora começamos a ter mais intercâmbio. No cinema isso é visível: há muitas coproduções, fundos comuns, filmes portugueses feitos com o apoio do Brasil e vice-versa, equipes que se cruzam cada vez mais. Isso me dá muita alegria, pois quando comecei a fazer cinema, não era assim. Não nos conhecíamos. Poderia ser melhor, mas avançamos. Estamos criando uma comunidade de língua portuguesa muito bonita. São países muito diferentes – nós, pequeninos; vocês, enormes. Mas temos muito a trocar. Temos muito mais em comum do que de diferente.

Teresa Villaverde também é conhecida por “Os Mutantes” (1998) e “Três Irmãos” (1994)

“Comecei no cinema muito nova, aos 23 anos, e sentia uma rejeição em Portugal. Sempre pensei que era por causa da minha idade, nunca associei que pudesse ser por eu ser mulher. Hoje, tenho outra visão sobre o assunto: acho que era por ser jovem, mas também por ser mulher.”


Fala-se bastante sobre a vitalidade do cinema de Portugal e de seus novos realizadores, mas em recente visita a Lisboa ouvi dos locais que o público prestigia pouco os filmes portugueses. Você concorda?
Sim. O público português não vai ver o cinema português, nem o europeu em geral e nem os filmes brasileiros que chegam lá. Como em toda parte, somos esmagados pela máquina de Hollywood, que tem tanto a produção quanto a distribuição. Tendemos a dizer que é um problema só do cinema, mas acho que não. As pessoas não têm muito interesse na arte portuguesa. Acho que está melhorando, e melhorou um pouco na música, sobretudo com o fado, que foi retomado pelas pessoas mais jovens. Mas o cinema, a literatura, as artes plásticas…ainda não.

E as discussões sobre igualdade de gênero no cinema? Fala-se disso em Portugal?
Não se fala muito ou não se fala quase nada. Não sei bem a razão, mas talvez seja porque os meios são tão escassos no geral. Ainda não há espaço para as mulheres reivindicarem seu espaço porque quase não há espaço para ninguém. Eu, por exemplo, comecei a fazer longas-metragens muito nova, aos 23 anos, e sentia uma rejeição em Portugal. Porque como há pouco dinheiro, se aparece [alguém novo], tira [dinheiro] do outro. Pensei sempre que essa rejeição era por causa da minha idade, nunca associei que pudesse ser por eu ser mulher. Hoje, tenho outra visão sobre o assunto: acho que era por ser jovem, mas também por ser mulher. É algo difícil de provar, é uma sensação que se tem de que, para ser reconhecida, a mulher tem de provar muito mais, trabalhar muito mais. Há alguns anos também sou produtora e em Portugal isso nunca é mencionado. Acho que se fosse homem, diriam “produtor e diretor”. Comigo, sempre fica de fora. Mas é difícil de provar e de fato os meios são escassos. Acho que o problema principal, seja em Portugal ou em outros lugares, é que nos lugares de decisão, onde se decide quem vai filmar, há muitas vezes [só] homens . E algo que só há pouco tempo pensei: os críticos de cinema são todos homens. Acho que agora há uma mulher em um jornal pequeno de Portugal. Eu mesma não tinha me dado conta. Então muita coisa precisa mudar. Mas em Portugal ninguém está fazendo nada sobre isso. Zero.

Que conselho você daria para as mulheres que querem trabalhar no cinema?
Não sei se tenho condições para dar conselho, mas acho que não se pode desistir. Muitas vezes queremos fazer uma coisa, ouvimos um “não” e nos enfraquecemos. E não pode, não pode se enfraquecer. É possível que uma mulher ouça “não” mais vezes do que um homem, embora muitos homens ouçam também, porque é um meio muito duro. Mas o que a pessoa tem de fazer é não desistir nunca. A vontade de desistir vai surgir muitas vezes. Mas não pode.


Luísa Pécora é jornalista, criadora e editora do Mulher no Cinema

Foto do topo: Mário Miranda Filho/agenciafoto.com.br

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