Como o caso Harvey Weinstein escancarou o assédio

Até outubro, o produtor americano Harvey Weintein era muito conhecido por jornalistas, profissionais da indústria cinematográfica e espectadores que acompanham de perto a corrida pelo Oscar. Ainda que não fosse exatamente uma estrela, ele fazia estrelas: as empresas fundadas por ele, Miramax e Weinsten Company, foram responsáveis por filmes como Pulp Fiction (1994), Gênio Indomável (1997), Shakespeare Apaixonado (1998), As Horas (2002), Chicago (2003) e Lion: Uma Jornada Para Casa (2016) – e receberam mais de 300 indicações ao maior prêmio da indústria cinematográfica.

Agora, o nome Harvey Weinstein é familiar mesmo para quem não se interessa por cinema. O jornal New York Times e a revista New Yorker revelaram décadas de acusações de assédio e abuso sexual contra o produtor, muitas delas mantidas em segredo graças a acordos judiciais e à pressão contra vítimas, funcionários e empresas de comunicação.

Desde que as primeiras reportagens foram publicadas, dezenas de mulheres decidiram contar suas próprias histórias sobre assédio (envolvendo Weinstein ou outros profissionais). O debate sobre o assunto, geralmente feito a portas fechadas, chegou à imprensa internacional, a eventos públicos e às redes sociais.

Veja os principais acontecimentos do caso Harvey Weinsten e entenda como o escândalo envolvendo o produtor ajudou a escancarar a cultura de assédio e abuso sexual em Hollywood:

As denúncias iniciais
A primeira reportagem sobre o caso foi publicada em 5 de outubro pelo New York Times. As repórteres Jodi Kantor e Megan Twohey falaram com atrizes como Ashley Judd e atuais e ex-funcionárias do produtor, além de consultarem documentos legais, emails e relatórios internos da Miramax e da Weinstein Company. De acordo com o jornal, os episódios de assédio costumavam acontecer em quartos de hotel, para os quais as mulheres eram convidadas supostamente a trabalho.

Cinco dias depois, uma reportagem de Ronan Farrow (filho da atriz Mia Farrow) na revista New Yorker deu mais detalhes. Além de trazer depoimentos de outras mulheres – entre elas as atrizes Asia Argento, Mira Sorvino e Rosana Arquette – a matéria afirmou que Weinstein foi acusado de estupro e publicou um áudio no qual o produtor é ouvido tentando convencer uma mulher a entrar em seu quarto e admitindo contato físico indevido. A gravação fora obtida em 2015 por meio de uma escuta policial depois de a modelo filipino-italiana Ambra Battilana Gutierrez ter feito uma denúncia para a polícia de Nova York. Posteriormente, ela assinou um acordo e a investigação foi abandonada.

A defesa de Weinstein
Em comunicado enviado ao New York Times, Weinstein afirmou ter “crescido nos anos 60 e 70, quando regras sobre comportamento e locais de trabalho eram diferentes”. “Essa era a cultura, mas desde então aprendi que isso não é desculpa. Percebi que o modo com que me comportei com colegas no passado causou muita dor e peço desculpas.”

Famosa por defender vítimas de assédio sexual, a advogada Lisa Bloom aceitou ser conselheira de Weinstein e afirmou, em seu próprio comunicado, que ele negava “muitas das acusações” e que era “um velho dinossauro aprendendo novas maneiras”. Depois de receber muitas críticas, ela abandonou a equipe do produtor. Quando a reportagem da New Yorker citou acusações de estupro, a porta-voz de Weinstein, Sallie Hofmeister, divulgou um comunicado dizendo que ele negava “qualquer alegação de sexo não-consensual” e que “nunca houve retaliação às mulheres que negaram seus avanços”.

A repercussão
Uma vez que o escândalo foi revelado, dezenas de mulheres vieram a público contar episódios de assédio envolvendo Weinstein, entre elas Angelina Jolie, Cara Delevingne, Eva Green, Gwyneth Paltrow, Heather Graham, Kate Beckinsale, Léa Seydoux, Lena Headey e Rose McGowan, que segundo o New York Times teria sido uma das vítimas que assinaram um acordo com Weinstein e que estariam legalmente impedidas de falar sobre o assunto. Muito envolvida no debate sobre a mulher em Hollywood, McGowan disse no Twitter que foi estuprada pelo produtor.

Muitas outras artistas se manifestaram publicamente contra Weinstein – e algumas das primeiras foram as atrizes Lena Dunham, Brie Larson, America Ferrara e Amber Tamblyn, além da produtora Megan Ellison. Em geral, no entanto, Hollywood demorou a responder. Em uma matéria do New York Times publicada no dia 8 de outubro (três dias depois de as primeiras declarações serem reveladas e dois dias antes de a New Yorker agravar as denúncias), uma repórter afirmou ter ligado para 40 profissionais da indústria do entretenimento – quase todos se recusaram a falar publicamente sobre o assunto. Mesmo no dia 11, depois da reportagem da New Yorker, o jornal The Guardian afirmou ter entrado em contato com representantes de mais de 20 homens, entre atores e diretores, que trabalharam em filmes de Weinstein. Inicialmente, nenhum respondeu.

Quando as condenações começaram a surgir, criaram um efeito cascata, com dezenas de artistas se manifestando por comunicado ou em seus perfis nas redes sociais. A revista People mantém uma lista com todas as declarações, incluindo as de Viola Davis, Meryl Streep, Kate Winslet, Julia Roberts, Emma Thompson (vídeo acima, em inglês), Ryan Gosling, Tom Hanks e George Clooney. Lena DunhamSarah PolleyLupita Nyong’o e Brit Marling publicaram artigos sobre o assunto e, em discurso, Kristen Stewart chamou a atenção para o assédio sofrido por outras profissionais que não as atrizes, como maquiadoras e diretoras de fotografia. Na mesma linha, uma reportagem da Hollywood Reporter sobre o assunto falou com 24 mulheres que trabalham em funções técnicas e quase todas disseram já ter passado por abuso verbal ou sexual no set.

No Twitter, a atriz Alyssa Milano lançou uma campanha de conscientização sobre a frequência do assédio e do abuso sexual, pedindo que mulheres que já passaram por situações desse tipo publicassem posts com as palavras “Me Too” (ou “eu também”). Em menos de 24 horas, mais de 500 mil tweets já haviam sido publicados.

O New York Times convidou leitoras a contar qual foi o impacto do caso Weinstein em suas próprias vidas. Entre as mais de 200 respostas enviadas havia a de mulheres que decidiram denunciar agressores e fazer terapia para lidar com traumas.

Nem todas as reações ao caso foram de apoio. A atriz Asia Argento anunciou ter deixado a Itália para escapar do “clima de tensão” e de “atribuição de culpa à vítima” que se seguiu ao seu depoimento na reportagem da New Yorker.

Quentin Tarantino, o diretor mais próximo a Weinstein, disse que tinha conhecimento sobre o comportamento do produtor. “Eu sabia o suficiente para fazer mais do que fiz. Era mais do que os rumores de sempre, a fofoca de sempre. E não [fiquei sabendo] por outra pessoa. Eu sabia que ele tinha feito algumas daquelas coisas”, afirmou. “Gostaria de ter assumido responsabilidade pelo que ouvi. Se tivesse feito o que deveria ter feito na época, não poderia trabalhar com ele.”

A BBC Brasil trouxe a questão para mercado nacional em uma reportagem na qual as diretoras Tata Amaral e Marina Person, a roteirista Rita Buzzar e a produtora Vania Catani falaram sobre o assédio no audiovisual brasileiro.

As consequências
Weinstein foi demitido de sua própria empresa e, depois, renunciou ao seu posto no conselho diretor. Além disso, foi expulso da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pela entrega do Oscar, na segunda vez na história em que um membro foi expulso – medida que não foi usada para outros artistas acusados de abuso sexual, como Bill Cosby, Roman Polanski e Casey Aflleck (este, aliás, ganhador da estatueta de melhor ator em 2017). Weinstein também foi expulso da Academia Britânica de Cinema e Televisão e deve ter a expulsão do Sindicato dos Produtores concluída em breve. Sua mulher, a estilista Georgina Chapman, anunciou o fim do casamento. Investigações criminais sobre o caso foram abertas pelas polícias de Nova York, Los Angeles e Londres. Até agora não houve pedido de prisão.

Bob Weinstein, irmão do produtor e seu sócio na Weinstein Company, buscou se distanciar de Harvey, com quem disse ter relacionamento conturbado há pelo menos cinco anos. Também disse que a empresa continua operando normalmente, embora a imprensa americana tenha reportado cenário de caos nos bastidores, além de conversas sobre venda ou mesmo fechamento. No dia 17 de outubro, a produtora Amanda Segel disse ter sido assediada por Bob Weinstein. Ele negou.

Em 22 de outubro, o jornal Los Angeles Times revelou 38 acusações de assédio contra o diretor James Toback, de Uma Paixão Para Duas (1997) e Preto e Branco (1999). De acordo com as atrizes (31 delas identificadas), o cineasta as convidava para encontros supostamente profissionais que rapidamente tornavam-se impróprios. Toback negou as acusações, dizendo nunca ter encontrado nenhuma das mulheres ou, se encontrou, “foi por cinco minutos” e ele não se lembra. Depois da reportagem, mais de 200 mulheres disseram ter sido assediadas pelo diretor, incluindo a atriz Julianne Moore.

Em 9 de novembro, o New York Times publicou uma reportagem na qual cinco mulheres acusaram o ator, diretor, roteirista e produtor Louis C.K. de assédio. Um dos mais importantes nomes da comédia americana, o humorista se masturbou em frente destas mulheres ou pediu para fazê-lo.

Outros homens acusados de assédio sexual ou estupro por várias mulheres depois das revelações contra Weinstein incluem Roy Price, executivo da Amazon Studios que renunciou ao cargo; Chris Savino, criador da série Loud House, demitido pela Nickelodeon; o jornalista televisivo Mark Halperin; o ator Danny Masterson; e o diretor Brett Ratner. Acusado de assediar vários homens, inclusive menores de idade, o ator Kevin Spacey foi demitido da série House of Cards. Outros nomes podem ser vistos no site da revista Bust, que mantém uma lista de homens acusados após Weinstein.

O futuro
Diante do turbilhão de denúncias, como garantir que as discussões sobre o assunto tenham efeitos práticos? A produtora Kathleen Kennedy, conhecida pela saga Star Wars, sugeriu a criação de uma comissão formada por diferentes especialistas, incluindo advogados, psicólogos, ativistas e profissionais da TV e do cinema. Esta comissão seria financiada pela própria indústria do audiovisual, teria “política de tolerância zero para comportamento abusivo” e criaria “um sistema seguro e confiável para que as vítimas possam fazer denúncias sem colocar seu trabalho ou reputação em risco.”

A organização Women in Film propôs três ações a serem buscadas pela indústria do entretenimento: 1 – paridade de gênero em conselhos de empresas e grupos com poder de decisão; 2 – práticas inclusivas de contratação, em todos os cargos; 3 – punição legal para os culpados ou cúmplices de assédio. O plano entende, portanto, que uma maior entrada de mulheres em posições de poder pode mudar a cultura hollywoodiana.

Crítica-chefe do New York Times, a jornalista Manohla Dargis escreveu sobre como os casos de assédio refletem o modo como as profissionais e a plateia feminina são tratadas por Hollywood:

“As mulheres ajudaram a construir esta indústria, mas há muito tempo ela é um empreendimento de dominação masculina que sistematicamente trata as mulheres como inferiores aos homens. É uma indústria que historicamente explora sexualmente as atrizes jovens e coloca selo de validade nas mais velhas. É uma indústria que constantemente nega emprego para diretoras mulheres e que trata a plateia feminina como um nicho, um problema ou algo para se pensar depois.”

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Esta reportagem será constantemente atualizada, conforme novos acontecimentos se desenvolverem.


Foto do topo: David Walter Banks/The New York Times

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